Um dia dia haveremos de nos tornar memórias das nossas memórias. E elas, como nós agora, irão lembrar-se de nós sem nos reconhecerem. Seremos lágrima pendente a tactear o fio onde outrora arriscámos a vida em troca de um passo equilibrado que viesse oferecer um abraço ao abismo em que nos havíamos tornado. Não caímos, não perdemos tão pouco o equilíbrio (...) rasgou-se apenas o fio e o mundo tornou-se ausente de nós.
Um dia, quem sabe, haveremos de nos cruzar num olhar limpo de mágoa - e não saberemos que o tempo apagou os mundos que a um do outro roubámos, e não saberemos que o céu permanece igual ao que era antes de vermos nelas o brilho das página que quisemos oferecer à poesia do abraço que alugámos às pedras que calcámos ausentes um no outro.
Um dia haveremos de ter Saudades do vento e da chuva; do Outono que morria às nossas mãos; do silêncio que vivia nas palavras que não tivemos de dizer; do chão onde nos deitámos de olhos fechados para olhar por dentro dos caminhos de pele que percorremos em contra-mão (...) haveremos de ter saudades de tudo, sem nos recordarmos que um dia existimos dentro um do outro. E o mundo há-de continuar, como continua hoje, paralelo a nós.
E haveremos de coexistir, alheios um do outro, entregues aos papeis que não soubemos rasgar. E havemos de ser todas as coisas que não pudemos ser nos dias em que nos assombrávamos com o sorriso das mãos que não eram nossas para enlaçar.
E um dia que o mundo se acabe, acabaremos junto com ele, ausentes um do outro (...) e, enquanto as sirenes tocarem por todas a coisas vivas, já os sinos terão tocado por nós, sem que tenhamos sido capazes de os ouvir por fora do silêncio onde outrora fomos grito...
Vítor Pereira
Crónica do Homem de Vento



