Vítor Pereira

domingo, 6 de dezembro de 2015

Fio-Luz



Um dia dia haveremos de nos tornar memórias das nossas memórias. E elas, como nós agora, irão lembrar-se de nós sem nos reconhecerem. Seremos lágrima pendente a tactear o fio onde outrora arriscámos a vida em troca de um passo equilibrado que viesse oferecer  um abraço ao abismo em que nos havíamos tornado. Não caímos, não perdemos tão pouco o equilíbrio (...) rasgou-se apenas o fio e o mundo tornou-se ausente de nós. 

Um dia, quem sabe, haveremos de nos cruzar num olhar limpo de mágoa - e não saberemos que o tempo apagou os mundos que a um do outro roubámos, e não saberemos que o céu permanece igual ao que era antes de vermos nelas o brilho das página que quisemos oferecer à poesia do abraço que alugámos às pedras que calcámos ausentes um no outro. 

Um dia haveremos de ter Saudades do vento e da chuva; do Outono que morria às nossas mãos; do silêncio que vivia nas palavras que não tivemos de dizer; do chão onde nos deitámos de olhos fechados para olhar por dentro dos caminhos de pele que percorremos em contra-mão (...) haveremos de ter saudades de tudo, sem nos recordarmos que um dia existimos dentro um do outro. E o mundo há-de continuar, como continua hoje, paralelo a nós.

E haveremos de coexistir, alheios um do outro, entregues aos papeis que não soubemos rasgar. E havemos de ser todas as coisas que não pudemos ser nos dias em que nos assombrávamos com o sorriso das mãos que não eram nossas para enlaçar. 

E um dia que o mundo se acabe, acabaremos junto com ele, ausentes um do outro (...) e, enquanto as sirenes tocarem por todas a coisas vivas, já os sinos terão tocado por nós, sem que tenhamos sido capazes de os ouvir por fora do silêncio onde outrora fomos grito...

Vítor Pereira
Crónica do Homem de Vento

sábado, 21 de novembro de 2015

Fósforo-Folha

Faz-me falta a saudade; Faz-me falta o Outono que chove das árvores por entre os dias frios de sol envolvidos no torpor do toque que respira o nome que não se pode dizer. Faz-me falta o silêncio de não te saber verdade oculta dentro dos momentos que o passado não fez vida. Não me recordo se chovia quando a pele se abandonou do toque que o corpo sôfrego exigia, não me recordo, lembro-me apenas da chuva que o dia seguinte trouxe sem levantar bilhete de retorno ao peito e à alma e ao corpo de todas as coisas que a Saudade, essa que agora me falta, tomou por empréstimo.


Quantos dias serão precisos para demolir as palavras que a caligrafia das montanhas esqueceu para lá do mar que foge entre os dedos descalços de tinta?

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Fonógrafo Perfume

Faltam poucas horas para o Outono. No meu quarto vestido de folhas velhas que caem da parede onde as prendo agrafadas ao desassossego que me prende - como janelas para o escuro de um quadro pincelado com vontades que se renderam à preguiça - dizer que faltam poucas horas para o Outono é o mesmo que dizer que falta pouco para que chegue o notário oficializar o que sempre foi, o que sempre é. Não obstante, a chegada do Outono que aqui já estava, faz-me pensar em todas as coisas que ainda possa escrever sem que tenha de me abster do silêncio em que te fiz monge. É um exercício difícil - procurar dar forma ao esquecimento com que todos os dias apunha-lo a memória - fazer do cansaço alegria e dar solidão ao passado.

Acho que o Outono está nesta última frase que escrevi - assim como tu - dar solidão ao Passado. Existe uma beleza intrínseca na morte de todas as coisas. O Outono é a morte da Natureza de todas as coisas e, como o amor a uma outra coisas qualquer, despede-se vestido de cores que são vida em forma de saudade, torpor sôfrego em forma de tela -fonógrafo perfume. O Outono existe em tudo o que este deixou para trás - é um pouco como todas as vidas que vamos abandonando para que nos seja permitido ultrapassar as mortes que o coração morre antes de deixar de bater - e é por isto mesmo que o Outono nos enche de uma melancolia quase alegre, de uma paz que é escura mas permite a frincha que verte o minúsculo feixe de luz  de onde montámos os fragmentos de todos os espelhos com que hoje nos fazemos presente.

É pálido o desejo de te procurar. A anemia do sótão vascular permite-se a pouco mais que ao vislumbre do vislumbre do que costumavas não ser e do que agora não és - um pouco de tudo guardado num pouco de nada. Ainda pensei - durante todos os dias de Outono a que o notário não assistiu - apagar as letras do nome onde te escondi de mim, e construir um comboio de corda (como dizia o mestre Pessoa) que te levasse para longe de mim, até que me apercebi de que é em mim, dentro da chuva-de-artificio que roubaste em mim... dentro de mim é onde és mais longe. Dentro de mim é onde não te posso tocar.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Pétala-Espinho

Faltam sete dias para o verão. O som do Inverno que sobrevive lá fora, atravessa os telhados lavados de chuva. Alguém se esqueceu do tempo. Nenhuma metáfora resiste ao tempo, e dele, fica apenas o que fica. Bem, hoje venho lembrar-te de pele que esqueceste aqui. A pele é impermeável à água, mas não à chuva. Existe algo na chuva que morre quando deixa de o ser, o mesmo se passa com a pele que lembra de ti o toque molhado da Primavera que se foi contigo. A terra molhada que não me secou de ti. 

A pele. A pele também se veste – veste-se todos os dias – e não temos, nós que a vestimos, a noção de que a pele é das roupas mais difíceis de usar. Quantas são as vezes em que a pele não nos assenta bem, não nos quer pertencer. Quantas são as vezes em que nos sentimos mal dentro da pele que nos pertence? Alguém se esqueceu no tempo. Diz-se que ao olhar as estrelas, estamos literalmente a olhar para o passado, mas, quantas são as vezes em que dou por mim a olhar para o céu estelar e para todos os futuros que ficaram por ser presente. Espaço e tempo, parados à volta das memórias que desconstruímos enquanto, alheios, apagámos todos os planos que o passado fez nada.

Os sonhos e o amor são feitos do mesmo orvalho opaco com que se pára o tempo. Dentro de um sonho, só nos apercebemos que algo está mal, que algo não faz sentido, depois de nos deitarmos para fora dele, acordar. Enquanto sonhámos, qualquer sonho é realidade impermeável aos véus do agora. O amor é a mesma coisa, embora seja tragicamente pior, porque dele, não nos é permitido acordar, apenas morrer uma morte vigilante em todos os espinhos de um cigarro que foi cancro antes de ser fumo. A morte de um amor, ou de um sonho, ou de uma coisa qualquer, é uma maquilhagem – fotografia cara e coroa de tudo o que foi – toda a história se torna mais bela e invariavelmente mais triste. Pétala-Espinho. 

Pudesse eu, olhar para as estrelas, e ver-me dentro de passado que me cabia em ti e eu céu seria mais escuro por ver-me luzir com mais brilho. O que sobra do tempo parado em nada e o espaço vazio de si é o que somos. Somos isso. 

O passado não volta atrás.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

domingo, 7 de junho de 2015

Comprimido-Prosa

Perdi noção do tanto tempo que passou, do tanto tempo em que procurei substituir-te, algo, alguém que pudesse substituir-me de ti. O mesmo tempo que levei a entender que não existe forma de preencher o espaço que o vazio ocupa – o vazio é insubstituível, porque, no final das contas, se colocarmos algo em cima do vazio, estamos apenas a preenchê-lo com matéria, mas ele, o vazio, continua lá – a matéria envelhece, ou simplesmente cansámo-nos dela, livrámo-nos dela, e o vazio volta a ocupar o lugar que nunca deixou. 
  
Não te aceitaria de volta se te pudesse ressuscitar. Da mesma forma que não posso matar o que sobrou de ti por dentro que sobrou de mim. Uma fotografia é como uma música parada no tempo, não existe forma de mudar nenhum dos três – no entanto vemo-los mudar por dentro dos nossos olhos e quase nunca nos apercebemos que fomos nós quem mudou e que até a mais real das imagens é moldada sobre a dança da chuva que seca o peito. E eu olho para todas as imagens com que me iludias com felicidade e recordo-me das recordações que tinha de ti antes de te tatuar a preto e branco nos lençóis onde a minha carne se deita para repousar de ti. Pó de flor. 

O maior problema de todas as coisas que não se podem tocar, é o vivermos abraçados a elas, e, no processo, não nos sobrar mão que possa agarrar o mundo capaz de cultivar a terra que sobrevive em nós. Comprimido-Prosa. Não obstante, qualquer coisa. Procuro sempre um “mas” como quem mergulha ao céu à procura de ar, como desculpa para existir, ser. Guardo de ti tudo quanto não posso deitar fora, como um cidadão do mundo que sobrevive a si através dos outros – deito as alegrias à chuva e não guardo nenhuma para mim. E sou feliz assim.

Escrevo prosa como quem procura a melhor frase para rimar o final de um poema e as escreve a todas, sem encontrar nenhuma.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espelho Mau



Será possível ao menos deitarmos fogo ao gelo que fizeram de nós? No dicionário nunca se encontra a equivalência da Saudade – a Saudade é um nome próprio que se apropria do nome de quem nos desapropriou de nós. Faz sentido? Pouco importa. Andámos sempre à volta do mesmo – coração círculo. Fogo – hoje quero falar-te do fogo como algo palpável. No meu dicionário, palpável é todo o sentido visível ao escuro do toque. E eu falo nas coisas como quem parece saber muito delas, quando no fundo falo nas coisas para tentar saber algo de mim. Espelho mau. 

Se formos capazes de abrir os ouvidos para o silêncio e enfrentar o toque palpável do violino, o que sobra é o encontro do arco com as cordas – fricção, vibração – e é como deitar fogo às recordações que guardámos com tanto carinho que não temos outra vontade senão matá-las com a mesma morte que estas nos dão a comer à vida – e ouvimo-las estalar; escuto-as estalar como troncos secos a dar luz ao Inverno de mim. Uma boa parte das estações são vividas no passado – tudo é memória de uma memória. A literatura é feita de comparações – usámos o “como” até à exaustão: “Eras vida – como morte que espera por se merecer” – e eu, que me gasto em comparações triviais, não sou capaz de te comparar a ti. Não tens comparação contigo, sim, não és comparável a ti. Foi aí que te perdi.

A melhor forma de se encontrar alguma coisa, sempre foi o deixar de procurar por ela. E eu quero tanto fazer as pazes com o Inverno que me vejo forçado a despedir-me do Adeus que todos os dias procuro dizer-te pela última vez, e, deixar-te ficar – aceitar-te todos os dias quando os pensamentos se deitam na cama e o dicionário da noite te traz na sombra da Saudade que se baptizou de ti. Aceitar-te todas as horas e deixar que te apagues, no teu tempo, no teu ritmo… e esperar que, no dia em que te vás de vez, sobre algum fogo… e um violino virgem de ti.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

sábado, 30 de maio de 2015

Poema Borboleta



Somos estrangeiros de todas as coisas que os outros vêem em nós. Ao mesmo tempo somos prisioneiros de tudo o que somos e escravos do que não podemos ser. No meio de tudo isto fica a poesia de todas as palavras que deitámos para fora dos desejos, em linha recta para o fundo de nós. Jogámos ao esconde-esconde da vida a contar idades em pétalas de mal-me-quer como quem espera pelo arco-íris onde não existe chuva nem sol. A felicidade é uma alegria possível em passos de dança que bebemos com os olhos – é mais difícil o desejo de ser-se feliz do que o é ser-se feliz de facto. Porquê? Entre todas as águas que nos podem avivar a sede, preferimos sempre as que nos salgam o preto e branco dos lábios e nos fogem pelos riachos do paladar confuso das mãos.

Quando comprámos um par novo de calçado, apropriámo-nos de todos os caminhos que este poderia dar nos pés de outra pessoa. Acontece o mesmo quando damos a mão a alguém – quase sempre existe um par de mãos que se perde dos pincéis de tacto e se apaga no presente de um outro futuro qualquer. Movimento mármore.

Deram-nos olhos para podermos ser cegos;

E eu não soube aprender que o essencial à vida não foi feito para os olhos – quem duvide que experimente sorrir o rosto ao sol fresco da Primavera, e se deixe depois abrir os olhos para o ver. O pior cego é o que quer ver. Um som surdo de movimento e uma imagem muda de cor é quanto basta para que vejamos o chão como quem se olha ao espelho – o espaço que calcas és tu.
Dizem os cientistas que o cérebro humano é equivalente ao Universo – gastámo-lo em trivialidades, a um e ao outro:

Não precisa de poesia quem nasceu para ser poema
Precisa de poesia quem viveu para sofrer poeta
Entre um poema e um poeta existe todo o espaço do Universo – 
O espaço maior entre dois objectos é quando se tocam. 

P.S.: 
Todos os poetas acabam assassinados pela poesia que os matou; 
Ninguém se atreve a matar um poema. 
Nenhum poema devia viver mais que uma borboleta.

Vítor Pereira 
Crónicas do Homem de Vento

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sorriso Semente


Hoje sonhei contigo. Sonhar contigo é visitar-me, apenas isso, tudo isso. Só me apercebi que sonhei contigo quando, muito depois de acordar, senti o perfume do final da tarde a chamar pela terra que tem sede de noite – como eu já tive de ti. Não é difícil viver no deserto, com o tempo a gente habitua-se, aprendemos a procurar pelo frio como quem vê sorrisos onde só lágrimas refrescam a face quente. O tempo é areia que escorre pelas mãos que querem água e eu… eu sou os passos que o vento apagou por trás de mim. Hoje sonhei contigo. 

Nenhuma ideia me parece pior do que uma memória que não quer morrer: 
Como se mata a recordação de um abraço que ficou por sonhar (?); 
Como se apaga o vazio do inteiro por gastar?

Viver vão sendo todas as coisas que me façam o peito bater por algo que não sejas tu. Sonho-te a dormir. E embora te veja dormir dentro do sonho que é meu, não me permito tocar-te – existem coisas que nem em sonhos nos pertencem. Sonho-te a dormir e só me apercebo que há algo de errado quando, já muito depois de acordar, me recordo das memórias que apanham boleia das flores de primavera que se atiram ao sol a brincar à vida. Sorriso semente. O pior das memórias é tudo o que elas não têm. E eu não me lembro como era a tristeza antes de ti – tenho saudades da tristeza de antes de ti. Do que mais tenho saudades é de tudo o que não me recordo de antes de ti. O passado é um quadro de areia deixado ao vento, e eu, sou os passos que apagaste à minha frente.

Fumei o cigarro de uma música e foi plantar amnésias.
Sonhar também é insónia.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Carvão Rubro



Que nome devemos dar ao lugar onde se acaba o corpo e a ausência começa? Limbo..? Até os homens mais descrentes sentem a necessidade de uma alma. Exista ou não, o problema da alma é que é sempre tarde demais. A alma é sempre tarde de mais. Quantas ausências são precisas para que entendamos que cada alma pertence fora do corpo que lhe foi atribuído? Cada alma pertence fora do corpo que lhe foi entregue ao nascer. Paz – paz são todos os raros momentos em que a alma vem visitar o corpo. Por norma é um outro corpo que a traz a nós. Quando a alma nos visita, sentimo-nos fora de nós, talvez por isso mesmo, por sermos estranhos ao estado inteiro. 

A solidão é uma linha recta que caminhámos por montanhas dentro de nós. Limbo. O amor é uma curva apertada que se esbarra no peito sem travões – tão fugaz que dura para sempre. A maior parte dos Homens deseja um amor que dure para sempre sem se aperceber do risco de o Para Sempre ser um amor sozinho. Carvão rubro. 

Carta para a minha alma:
Se me estiveres a ler, lembra-te das notas pretas do piano – chamam-se acidentes e fazem sons tão bonitos tanto quanto o fazem as notas brancas. Preto e branco pode bem ser uma fotografia, ou um filme antigo, mas preto e branco também é música. E isto que quer dizer? Fazes-me falta. Não te peço que voltes, não espero que voltes. Mas, se por ventura do acaso voltares, traz o piano que me levaste e mata a música que me deixaste e, por um segundo, deixa-me sair de mim. Mas se vieres, por favor, vem sozinha, para que não tenha outra vez, de vos ver partir às duas – a ti e a quem te devolveu a mim – e ficar eu, de novo às voltas dentro de uma linha recta, por montanhas dentro de mim.


Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Diamante Saudade

Não ser nada é das tarefas mais extenuantes que podem existir. Às vezes ponho-me a pensar naquela frase da literatura barata – “Sou metade sem ti” – e questiono-me como se pode reduzir o vazio a metade de si mesmo… A profundidade das coisas reduz-se quase sempre ao oco de toda a sua parte visível – ou seja (?) – não nos vale de nada um mergulho para descobrir o motivo de uma tristeza qualquer, quando este está ali à tona, tão visível que seria preciso afogá-lo – ao motivo, entenda-se – para que o pudéssemos ocultar. Se calhar é isto mesmo – a antítese da alquimia – mergulhámos a fundo para dentro de nós, não pela procura, tão pouco pela esperança do encontro, mas pela ocultação de tudo o que o olhar da lágrima alcança.

Vá. Pensando agora melhor, concluo que o nada se torna maior à medida que se torna mais pequeno. Se compararmos o nada – todos os seus fragmentos – aos átomos de carbono, caminhámos para o diamante. E é precisamente aqui que a ciência contraria o conhecimento geral – andámos de mãos dadas com a solidão a dizer coisas de pequenez como quem acredita, porque sempre assim nos foi ensinado, que à medida que algo diminui, este se torna mais pequeno, quando, na maior parte dos casos, o que acontece é que a redução cresce por compactação. É essa saudade que tenho de ti. Todos os dias se reduz para dentro de um peito que se torna mais pequeno para dentro do tempo que há-de para sempre aumentar. Um dia a saudade será diamante e serás o bem mais precioso que não possuo. Até lá serei nada.

Os astrólogos dizem que o Universo é feito maioritariamente de matéria negra – de algo a que a nossa compreensão básica chama de vazio – e que, quem sabe, é nela mesma que estão as raízes do tudo. Alegremos-nos por fazer parte de um Universo maior.


Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento    




domingo, 17 de maio de 2015

De que cor é o perfume da saudade?

A memória não se limita a ser um presente do passado. Acima de tudo, a memória acaba por ser um lugar, um espaço que toma conta do vazio à noite. O que a memória, ou as memórias, têm de mais curioso é o elas pertencerem-nos, mas, em grande parte dos casos, nós não lhes pertencemos mais – no meu caso em particular é como ver-me espectador de mim próprio, num filme em que, não obstante ter sido personagem principal, fui actor de mim mesmo. Não pertencemos às memórias que nos pertencem, ainda que estas sejam a projecção de algo real, de algo que existiu, nós somos projecções de algo que não é mais. E a memória fica, assim, um lugar à noite dentro do mundo que dorme.

Mas à noite, as memórias são como os gatos, todas elas são pardas. E eu, por tudo quanto é mais sagrada, não consigo recordar-me do perfume da terra molhada quando chovia pelos caminhos que me levavam a ti. Os caminhos são os mesmos, a terra e a chuva também, iguais ao que eram muito antes de eu os percorrer, e tu, por certo também andarás por aí, por alguns dos antigos lugares e por muitos outros novos, mas eu, por mais que faça, não consigo reencontrar o da terra molhada quando chovia pelos caminhos que me levavam a ti. Se tudo continua igual, foi eu que mudei – e os caminhos de terra molhada e a chuva por ela levada, ainda que os percorra todos, ainda que copie os passos que deixei desenhados no chão, esses não me levam mais a ti. Nenhum caminho pode dar a Roma se Roma deixar de ser tua.

Os sons são o castelo de cartas que ainda me permitem colocar o velho gira-sonhos a funcionar para te ouvir sussurrar o nome em que me tornei estranho… Tudo o resto são memórias que sobreviveram a um passado onde não sobrevivi. 

De que cor é o perfume da Saudade?




Vítor Pereira 
Crónicas do homem de vento 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Nameless

A vida nunca é o que esperámos. Então porque esperámos nós? Porque a vida é isso mesmo – uma espera. Não espera de aguardar – se bem que também o fazemos – mas uma espera de expectativa. Alguém se terá perguntado porque gostámos tanto de histórias, de ficções, de filmes que podiam ser o nosso – somos todos fazedores de histórias, nem todos possuem a capacidade de escrever uma história ou de delinear um conto ou uma música que conte uma coisa qualquer, mas somos todos fazedores de histórias, tecelões de sonhos e criadores de casulos de seda. Mas será real aquela história do “segue os teus sonhos”? Talvez o seja, ou talvez o deva ser. Mas talvez – e como sempre, posso apenas garantir-me um talvez – muitos dos sonhos que sonhámos não sejam sonhados para serem reais mas sim para isso mesmo – para serem sonhados, fugir da vida para poder, por breves instantes, não ter de a viver.

O único sentido que procuro nas palavras que escrevo para dentro do papel é exportar o sentido que nunca me faço cá dentro – naquilo a que alguns chamam de alma e outros tratam por vazio. Esta semana escrevi outra história em forma de música. É engraçado, se um dia tivesse de explicar a alguém como raios faço eu uma música, não poderia responder outra coisa senão algo como “Não faço música nenhuma, cada música me desfaz um pouco”. Mas normalmente o que acontece é que me deparo perante uma qualquer harmonia às mãos da guitarra, ligo o gravador do telemóvel e abandono umas palavras ao acaso em cima de uns acordes, e por “acaso” entenda-se literalmente isso – uma capacidade de desligar a lógica linguística por não mais que dois minutos. Essa é a parte fácil – se é que é justo chamar fácil ao acaso – depois são horas, por vezes dias, a tentar decifrar a lógica da história que ali se escreveu sem mim – alterar um adjectivo aqui, acrescentar um nome ali, mudar uma lágrima de verso, colocar uma rima no final de uma frase, numa palavra – decompor.

O melhor vem no fim. Não tenho presunção dentro das minhas músicas – abro o peito para dizer que sou músico, que componho música, mas não presumo qualidade em nenhuma delas, se uma música é boa ou má, não me cabe a mim dizê-lo, aliás, é quase um erro dizer que uma música me pertence, quando em boa verdade, e como já disse, é a música que me desfaz. Mas como disse, o melhor vem no fim – naquela primeira vez em que escuto a música na forma a que chamo de completa – não lhe chamo terminada, porque fim, em boa verdade, nenhuma música tem. Mas quando a escuto por completo pela primeira vez, por uns três ou quatro minutos, posso esquecer-me da vida, de mim. É assim que tantas vezes, dentro de uma música que geme triste, dou por mim a sorrir com uma lágrima nos lábios, ou a chorar com um sorriso no olhar, tanto faz.

Quando era miúdo sonhava ser músico. Não tinha noção do preço.

P.S.: “Nameless” foi o nome com esta última música se baptizou. Cliché ou não, pouco me importa, não foi eu quem lhe deu nome. Não obstante, depois de a escutar pela primeira vez, fui à carteira verificar o meu bilhete de identidade. O nome ainda lá estava:

Vítor Pereira



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma ampulheta e um fá menor

Ganhei um medo terrível ao papel. E às palavras também – não às que tenho para dizer aos outros, sim às que escondo de mim. Por estes dias escrevi a última canção que tinha para te escrever – isto é mesmo que dizer que todas as canções que te escreva daqui em diante serão meras repetições embaladas por melodias diferentes, sinónimos em forma de som, lágrimas em forma de palavra. Não obstante, escrevi a última canção que tinha para te escrever, acaba com um tão banal “… and now it’s time to let you go”, banal sim, repetido em inúmeras canções, estou certo, ainda assim foi a primeira vez que a escrevi eu, com uma caneta e um Fá menor.

“Que frase forte” disse a miúda que canta algumas das minhas canções. Como se explica o sentido de uma canção e de uma vida a uma miúda com dezassete anos? Não se explica, “Que frase forte” disse ela, e eu sorri e segurei o coração na guitarra. “Vamos do último refrão, chegada essa parte farei o último acorde, deixas a guitarra respirar e dizes as palavras” disse-lhe eu com palavras parecidas a estas. E ela o fez, naturalmente, sem que tivesse de explicar o como ou o porquê, disse as palavras como quem as sente – despediu-se de ti por mim, despedi-me de ti com ela. “And now it’s time to let you go”.

É curioso com as pessoas dizem “a vida continua” precisamente quando esta está parada, estanque. Assim é. 

Voltou a chover.

Vítor Pereira