Faltam sete dias para o verão. O som do Inverno que sobrevive lá fora, atravessa os telhados lavados de chuva. Alguém se esqueceu do tempo. Nenhuma metáfora resiste ao tempo, e dele, fica apenas o que fica. Bem, hoje venho lembrar-te de pele que esqueceste aqui. A pele é impermeável à água, mas não à chuva. Existe algo na chuva que morre quando deixa de o ser, o mesmo se passa com a pele que lembra de ti o toque molhado da Primavera que se foi contigo. A terra molhada que não me secou de ti.
A pele. A pele também se veste – veste-se todos os dias – e não temos, nós que a vestimos, a noção de que a pele é das roupas mais difíceis de usar. Quantas são as vezes em que a pele não nos assenta bem, não nos quer pertencer. Quantas são as vezes em que nos sentimos mal dentro da pele que nos pertence? Alguém se esqueceu no tempo. Diz-se que ao olhar as estrelas, estamos literalmente a olhar para o passado, mas, quantas são as vezes em que dou por mim a olhar para o céu estelar e para todos os futuros que ficaram por ser presente. Espaço e tempo, parados à volta das memórias que desconstruímos enquanto, alheios, apagámos todos os planos que o passado fez nada.
Os sonhos e o amor são feitos do mesmo orvalho opaco com que se pára o tempo. Dentro de um sonho, só nos apercebemos que algo está mal, que algo não faz sentido, depois de nos deitarmos para fora dele, acordar. Enquanto sonhámos, qualquer sonho é realidade impermeável aos véus do agora. O amor é a mesma coisa, embora seja tragicamente pior, porque dele, não nos é permitido acordar, apenas morrer uma morte vigilante em todos os espinhos de um cigarro que foi cancro antes de ser fumo. A morte de um amor, ou de um sonho, ou de uma coisa qualquer, é uma maquilhagem – fotografia cara e coroa de tudo o que foi – toda a história se torna mais bela e invariavelmente mais triste. Pétala-Espinho.
Pudesse eu, olhar para as estrelas, e ver-me dentro de passado que me cabia em ti e eu céu seria mais escuro por ver-me luzir com mais brilho. O que sobra do tempo parado em nada e o espaço vazio de si é o que somos. Somos isso.
O passado não volta atrás.
Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento
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