Vítor Pereira

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Preto e Branco



A guitarra chora
Sobre os prantos da humanidade.
Brame pela demora
Da demanda da verdade.

Harmónicos de um verde,
Pardo, pelas sombras queimado.
Gotejos gretados de uma sede
De um graal avulso, abandonado.

Escalas diminutas de uma utopia,
Que teima romper-se por entre os dedos.
Sons informes de uma melodia,
Perdida por entre velhos segredos.

Chora a funesta humanidade
Sobre a guitarra em pranto defunto,
Brame em silêncio pela verdade,
Do preto e branco de um mundo.


Vítor Pereira

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Oblívio














Sentado sobre a impalpável matéria –
Na sabedoria de um oblívio cinzento,  
Ergue-se no clamor da miséria,
O eco abafado da voz do tempo.

Por entre as montanhas de areia,
Uma treva informe ergue-se cansada –
A ampulheta de uma baça teia,
Antediz a perpétua madrugada.

São murmúrios que o Homem olvida,
Como quem esquece as adagas do presente –
Vai-se esbatendo o infortúnio da vida,
De quem a vive como quem não sente.

Ao longe, p’ra lá do horizonte,
Outro eco teima vociferar –
Uma voz com fé de mudança,
O prenuncio de um passado distante,
Trémula como o segredo latejante –
A tremeluzir uma parda esperança…

Vítor Pereira
02/11/2012

domingo, 14 de outubro de 2012

Cidade do Outono


















A cidade, arbitrária caminha.
Com ela me arbitro também.
Fito as gotas da chuva vizinha,
Que por entre a bruma das luzes –
Velhas tristes e fugazes –
Choram sem saber por quem.

Folhas vagueiam no lençol do tempo,
Não me dão nunca a solidão.
Brota-me a imagem, um simples momento,
Em calma adormece-me a sofreguidão.

Carros passam entre telas de vidro,
Quadros beijados pelas lágrimas do céu.
E o âmago outrora perdido,
Retorna – encontra um caminho pelo breu.

São Outonos, tantos quantos eu sou,
São promessas – murmúrios que a noite trás.
Rasga-se o pergaminho que a dor outorgou,
Para cair finalmente nos castanhos da paz.

Vítor Pereira

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Livro (Conto)


O Livro

            A ampulheta continuava a gerir o tempo, nunca parava. As areias renovavam-se constantemente, caíam, grão a grão, escorrendo lentamente pelo orifício que une as duas partes da ampulheta – as duas âmbulas – a da cima, o espelho do presente que corre e que a cada segundo se esgota, a de baixo, a tumba das areias de um passado que se acabou. Não precisava de ser virada ao contrário, essa lei aplicava-se às ampulhetas comuns, não a esta, a primeira das ampulhetas. A areia corria de mãos dadas com o tempo, e tal como o tempo, era perpétua e infinita, uma cascata que incessantemente se renova, sem que a intervenção dos deuses seja necessária.
            O livro permanecia aberto, escrevia-se a si mesmo. Sem que qualquer mão fosse requerida, os signos da língua original apareciam sobre as páginas brancas, simples páginas brancas, sem linhas, sem marcas de água, meras páginas brancas, nas quais as palavras apareciam numa corrente fluida e alinhada. Somente as páginas precisavam de ser viradas manualmente, tudo o resto era deixado aos desígnios do destino, ao universo de um caos decifrado, sem acasos, sem divindades. Tão natural como o universo: as areias do tempo corriam, o livro do tempo escrevia-se.
            Ambos – o livro e a ampulheta – estavam onde sempre haviam estado, numa mesa feita de um material desconhecido, numa sala sem espaço e sem forma, um compartimento sem idade que não guardava mais que isto: uma mesa, um livro e uma ampulheta.
            O Guardião tinha uma única obrigação, virar as páginas do livro sempre que uma página ficasse completa, para que as linhas do tempo se escrevessem ininterruptamente, sem atrasos nem demoras. A única regra, não tocar em nada mais para além das páginas do livro, unicamente quando estas tinham de ser viradas. Este era o contrato, tatuado na pele, nos braços do Guardião, duas regras, virar as páginas, não tocar em nada.
            Tinha as formas de um homem, não que ele soubesse quais eram as formas de um homem, ou que existiam seres semelhantes à sua imagem, conhecia as formas do seu corpo e as linhas do seu rosto sem expressão, não nitidamente, apenas o que via reflectido no vidro cilíndrico da ampulheta que se erguia na mesa. Tudo quanto conhecia estava naquela sala: aquela mesa, aquele livro, aquela ampulheta e num dos cantos, escondida, quase invisível, coberta por um manto de sombras, a cadeira onde repousava, onde esperava pelas páginas, na sua interminável missão.
Mais que isto, só os fragmentos textuais que conseguia vislumbrar nos curtos segundos entre o virar de cada página, era assim, num labirinto de parágrafos incompletos, que aprendia as histórias do mundo, as linhas da existência dos homens, das plantas e dos animais, das pedras e de tudo quanto existia.
Da sua própria existência, nada sabia. Simplesmente existia, eterno e imutável. Não recordava as origens da sua criação, desconhecia a génesis da sua existência. Existia e cumpria a sua tarefa, a cada momento, como sempre havia sido. Sentava-se nas sombras, na cadeira fria e dura, e esperava, virava uma página, permitia-se a um breve vislumbre por algumas palavras, a mais o movimento do virar da página não permitia, depois, decorava as palavras e voltava para as sombras e para a espera.
As palavras, nas sombras, as palavras iluminavam-lhe o pensamento. De todos os seres e de todas as coisas escritas, um ser sobrepunha-se aos outros, repetia-se ao longo das páginas do livro do tempo, o Ser Humano, e junto com ele, vinham as palavras que o definiam, o Amor, o Ódio, as Relações, as Guerras, a Vida e a Morte… Agarrada a todas estas palavras humanas, vinha a expressão que se erguia por trás de todos os actos da humanidade, o Livre Arbítrio. 
O Guardião lia as palavras, como sempre havia lido, mesmo não sabendo como as sabia ler. Nem sempre as compreendia, nem sempre lhes encontrava o sentido, mas ao longo dos últimos anos, dos últimos séculos, à medida que a referência ao ser humano aparecia cada vez mais no livro, o Guardião fez por aprofundar o seu conhecimento na raça humana, por tentar perceber os seus actos, a raiz das suas acções.
Porém, como um veneno que se espalha, quanto mais lia sobre os homens, mais questões se formavam no seu pensamento. Os sentimentos, as relações, as guerras e o livre arbítrio. Era difícil entender os sentimentos e as relações, mormente para um ser que sempre esteve sozinho, enclausurado numa sala perdida no tempo e no espaço, naquela sala, sem nunca interagir com ninguém. Mas se os sentimentos eram o que diferenciava os humanos dos outros seres, porque razão criavam eles guerras, confrontos sem sentido, porque se viravam uns contra os outros? E o livre arbítrio?
Foi assim que, pela primeira vez, a dúvida se formou no interior do Guardião. Se o livro escrevia e delineava tudo o que era suposto acontecer, como era possível existir o livre arbítrio, como podiam os homens escrever o seu próprio destino? Seria o livro a decidir os desígnios da humanidade, ou limitar-se-ia a apontar as histórias dos homens, a história do mundo?
Como quem respira pela primeira vez, como quem sente o sangue quente correr nas veias depois de uma existência no abismo do gelo, o Guardião levantou-se da cadeira, com um passo largo deixou o sepulcro das sombras e perfilou-se à frente da mesa. O livro esperava-o, respirava a sua corrente de palavras, esperava pelo guardião, mas pela primeira vez, não esperava pelo virar da página, a página ia ainda a meio, e de repente, quando os olhos do Guardião alcançaram a corrente de palavras, a escrita parou, as palavras deixaram de se escrever, o livro parou de escrever…
O Guardião olhou o último parágrafo gravado no livro do tempo, era curto, as palavras eram simples, mas o assunto em questão, nunca havia entrado naquele livro, era como se uma nova personagem tivesse repentinamente surgido no universo, calmamente, o Guardião leu a passagem:
 “Como quem respira pela primeira vez, como quem sente o sangue quente correr nas veias depois de uma existência no abismo do gelo, o Guardião levantou-se da cadeira, com um passo largo deixou o sepulcro das sombras e perfilou-se à frente da mesa. O livro esperava-o, respirava a sua corrente de palavras, esperava pelo guardião, mas pela primeira vez, não esperava pelo virar da página, a página ia ainda a meio, e de repente, quando os olhos do Guardião alcançaram a corrente de palavras, a escrita parou, as palavras deixaram de se escrever, o livro parou de escrever…”


Vítor Pereira

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Directiva nº2



Um estranho sossego
Envolve as paredes,
Onde outrora dançou
O murmúrio do passado.
Que hoje esconde o medo,
As mágoas de velhas sedes,
Que beberam em segredo,
Do cálice do pecado.

Janelas cessam o ensejo,
Numa redoma de antigas ruínas.
Entoam lágrimas de um arpejo,
Do infortúnio destas quinas.

Vestem os trapos agora,
A bandeira que foi Portugal,
Veio o volver da hora,
Ceifar a honra nacional.

Veio o império que se perdeu…
Veio o quebrar do selo.
Que o passado se esqueceu,
O pecado foi esquecê-lo. 


                                                                            
Vítor Pereira

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Docete omnes gentes


Para uma pessoa que como eu se defina, não diremos escritor, mas como um amante da escrita, da literatura e, acima de tudo, da Língua Portuguesa, convirá, ousaremos dizer, dedicar umas quantas palavras ao dilúvio de considerações que tem inundado este tão afamado acordo ortográfico.
Quem porventura pense que o que aqui se pretende é fazer uma listagem dos prós e contras do referido acordo, engana-se. Tão pouco nos importará tecer considerações relativas ao porquê dos porquês ou aos motivos desconexos que anuíram uma nova forma ao corpo das palavras, não esquecendo porém – e isto sim convém ressaltar – que podem as altas instâncias alterar a forma do corpo, mas cabe às pessoas preservar a sua Alma!

O que incessantemente me perturba – areias movediças de um legado que se deteriora com as marés do tempo – é o facto, talvez controverso mas dificilmente refutável, de que pouco importam os motivos que levaram a este novo acordo, pouco importa saber se o antigo acordo é mais louvável e honroso perante os egrégios livros da História da Pátria esquecida, ou, por outro lado, se este novo será um livro em branco, pronto a receber as páginas virtuosas do futuro…

Tudo isto se dilui na simples constatação que qualquer professor de Língua Portuguesa poderá tirar – e se estas palavras se mostrarem erróneas ou de qualquer modo falaciosas, que estes não hesitem em contrapor as minhas indagações – qualquer professor dizia-se, poderá constatar que cada vez mais, os alunos, os jovens, aqueles que terão na mão a caneta e a tinta permanente para escrever as linhas indecifráveis do porvir – perdoem-nos as constantes divagações – estes jovens, escrevem cada vez pior!

Não venham os críticos olhar estas palavras como uma crítica, ou pior, como um atestado de analfabetismo! Serão estas palavras, o espelho de uma preocupação, de quem lê nas palavras de Pessoa, os vislumbres de um Nevoeiro Patriótico, uma herança, um património que se vai perdendo – pertencendo a Língua a esse espólio pardacento.

No fim das contas – e por mais que o saudosismo me faça cair as preferências sobre o acordo que sempre usei – de pouco ou nada importa se a forma gráfica de uma palavra se alterou, quando, uma boa parte dos jovens – que não se entendam nestas linhas qualquer forma de definição absoluta e abrangente a todos – não possui as ferramentas suficientes para elaborar uma frase ou desenvolver uma ideia de forma correcta e conexa perante as linhas virgens do papel!

Um outro facto que me parece injustificável, e perdoem-me a franqueza, são as considerações que se encontram nas redes sociais, relativas a este já desgastado novo acordo ortográfico. Senão vejamos: Qual não foi o espanto deste que vos escreve, quando, navegando pelas marés disformes da teia informática, encontrei um daqueles grupos denominados “Anti-acordo ortográfico” que se encontra numa dessas bem-aventuradas redes sociais, um grupo com milhares de apoiantes que manifestam o seu desagrado, por vezes de forma quase odiosa para com o supracitado acordo – e não ousaremos nunca contestar ou criticar quem usa o protesto como forma de expressão. Porém, e no porém encontra-se a raiz de cada problema, ao dedicar um olhar atento aos comentários que alguns – demarque-se o Alguns – dos apoiantes deste grupo deixavam na respectiva página, deparei-me com o curioso – e desconcertante! – facto de que estes não escreviam nem em concordância  com o antigo acordo ortográfico, nem conforme o novo, escreviam e escrevem, simplesmente de forma errada, com erros ortográficos, e pior, erros de construção textual!

Reforcemos a ideia de que não pretende este texto ser uma crítica ou um atestado de óbito à Língua portuguesa, pretende simplesmente chamar a atenção para as novas “correntes literárias” nascidas das linguagens simplificadas dos telemóveis e das redes sociais, que mais que o conteúdo da mensagem, pretendem sim, ser rápidas e vazias, servindo para pouco mais que estabelecer ligações humanas sem sentido ou consistência, poupando, mais e mais, a mente ao desconforto do raciocino.
Fica então questão – talvez perpétua e irresoluta – Será de facto a ortografia que precisa de revisão, ou seremos nós a precisar de rever a forma como a utilizamos?

Não esqueçamos nunca, que terá o Ser Humano criado a linguagem escrita para gravar e perpetuar as linhas infindáveis do seu pensamento na castidade incólume dos desígnios do papel, tendo em vista, simplesmente, aquilo que nos difere dos outros animais – A expressão!
Não deixemos então que a Língua Portuguesa se deixe morrer pelos fantasmas do presente, porque seja ela “óptima” ou “ótima”, o importante é que não seja má…

“É hora!
Valete, Frates”

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não Sou Poeta



Não sou poeta,
Sou um actor de poesia.
Não sou um corpo,
Nem um profeta.
Sou uma estrofe vazia.

Todavia pulso e insisto,
Grito os ferros da minha herança.
Porfio, mantenho-me em pé.
Sangro alma mas resisto,
Na minha débil esperança,
E total falta de fé.

Não a Deus, à sua imagem!
Que habita este globo covil,
Esse humano ser tão perfeito,
Que já brotou com o defeito,
De se exaltar de tanta coragem,
Mas de ser totalmente vil.




Poeta?! Não, não o ouso.
Sou um maldito da razão.
Sangro, mas jamais repouso,
Da minha velha opinião.

Inspiro, e o teatro permanece…

Vítor Pereira





 Finis coronat opus