Vítor Pereira

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

# Lágrima :)




Amar acaba por ser uma predisposição, uma aceitação da dor. Não a dor que mata, mas a dar que alimenta a alma. Engane-se quem se acredita ser capaz de ser feliz sem lágrimas! Desengana-se quem tem fé num corpo livre de sofreguidão - só a inexistência da matéria impalpável da alma pode livrar o homem da dor, mas esse vácuo, livra-o também do verbo viver. Tomemos a Saudade: sofro no momento em que te encontro, porque sei, com todo o amor que a certeza me dá, que essa saudade que mato quando te vejo e te beijo, são duas saudade por nascer. Mas sofro com um sorriso, e depois, quando adormeces, tento parar o tempo como fotografia, atraso-o, nego-o. Mas acabo por partir, espero sempre um pouco mais: mais um vislumbre, mais um beijo no teu rosto que sonha, mais um toque, mais um murmúrio da tua respiração... Mas vou-me, abandono-te para que possa ficar em ti. E a lágrima, chorada ou guardada, fica em ti - no beijo em que te Amo - e em mim, no Amor que me leva... E choro, choro com um sorriso na pele salgada.

Lágrima. Querendo colocar um sinónimo em cima da Humanidade, com H maiúsculo, terá de ser, impreterivelmente, a palavra Lágrima. E, ainda assim, não deixará a lágrima de ser a síntese do Universo, a anáfora de cada conto, a partícula menor da carne, a porta para o que só se pode ver de olhos cerrados - inventem um dia um lágrimoscópio e talvez sejamos capazes de ver o corpo da alma; sim, já o inventaram, alguns o inventam a cada dia - quando fecham os olhos para descompreender a racionalidade do sal.

Parecemos estar a filosofar sobre coisa nenhuma, quando o que queremos dizer, quando o que quero dizer, a ti que moras na lágrima e no sorriso do meu peito, no norte e no sul da alma que no horizonte me criaste, a ti, digo: em cada lágrima reside o fragmento inteiro do que somos, do que cada um de nós é. No rés-do-chão de cada lágrima mora uma sombra de solidão, portanto digo-te, partilhemos o sal da lágrima singela, e a felicidade será o amor com o qual temperaremos o Universo de cada segundo. Assim, em duas lágrimas que se encontram no abraço de um beijo, se encontra o Amor que nos encontrou.

E agora a ti - a todo e qualquer um que porventura me leia - atreve-te! Procura a lágrima que te faça feliz; o paradoxo que te complete. Para cada mundo, existe um mundo por descobrir... Assim se faz o Universo - plural e único como o existir.

Vítor Pereira
Um livro inventado hoje

(Ao meu mundo e ao resto do mundo)







quarta-feira, 6 de novembro de 2013

# Desperdido (B*)





Perdi-me pelo mundo inconsciente de ti. Perdi-me pelo mundo à tua procura, procurei-te sem te saber, procurei-me no Tu que não sabia existir. Mas procurei-te, desejei-te, sonhei-te, amei-te... muito antes de te acreditar, de me acreditar, de nos acreditar. Fui um ignorante sem bagagem pelo mundo, foi um passageiro de um sonho que ainda não via luz, a tua luz. Viajei com punhado de frases como alimento e a poesia como transporte, abandonei-me, recriei-me... Vivi à procura de um tesouro sem mapa, de uma ideia, um conceito, tão frágil, tão ténue que, se pensado em voz alta, se sonhado sob a forma do sono, se dissolvia na maresia da chuva do horizonte do amanhã - Amor.

Mas perdi-me. Amei-te muito antes de me encontrar em ti. Amei-te nas pequenas coisas: no sorriso de uma flor acordada pelo abraço do orvalho tépido da manhã; no cantar de uma pedra a beijar o marulho adoçado do mar; na canção do vento à saudade que te haveria de ter... Em todos os suspiros que suspirei por coisa nenhuma, amei-te sem saber.

Mas perdi-me... até ao dia em que me perdi no encontro do teu olhar beijado no meu. Ancorei na aurora da tua pele para nunca mais regressar a mim, para me saber real. Soube que existia no dia em que ganhaste forma no meu peito - gesto, mudez, pulsação... Sei perfeitamente quem não era, desconheço completamente quem sou, mas sei, claramente, que tudo o que sou me és, tudo o que és eu Amo, tudo o que Amo és... De resto, tomo todas as agendas do futuro, e escrevo o teu nome, em todas as páginas, dedico-te o tempo e abraço a aventura de uma vida a teu lado, com o Amor como único guião, com o abraço como único transporte, com o beijo como respiração...

Perdi-me no mundo à tua procura.
Perco-me em ti à procura do mundo.

















Vítor Pereira
Um Livro Inventado Hoje