Vítor Pereira

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Diamante Saudade

Não ser nada é das tarefas mais extenuantes que podem existir. Às vezes ponho-me a pensar naquela frase da literatura barata – “Sou metade sem ti” – e questiono-me como se pode reduzir o vazio a metade de si mesmo… A profundidade das coisas reduz-se quase sempre ao oco de toda a sua parte visível – ou seja (?) – não nos vale de nada um mergulho para descobrir o motivo de uma tristeza qualquer, quando este está ali à tona, tão visível que seria preciso afogá-lo – ao motivo, entenda-se – para que o pudéssemos ocultar. Se calhar é isto mesmo – a antítese da alquimia – mergulhámos a fundo para dentro de nós, não pela procura, tão pouco pela esperança do encontro, mas pela ocultação de tudo o que o olhar da lágrima alcança.

Vá. Pensando agora melhor, concluo que o nada se torna maior à medida que se torna mais pequeno. Se compararmos o nada – todos os seus fragmentos – aos átomos de carbono, caminhámos para o diamante. E é precisamente aqui que a ciência contraria o conhecimento geral – andámos de mãos dadas com a solidão a dizer coisas de pequenez como quem acredita, porque sempre assim nos foi ensinado, que à medida que algo diminui, este se torna mais pequeno, quando, na maior parte dos casos, o que acontece é que a redução cresce por compactação. É essa saudade que tenho de ti. Todos os dias se reduz para dentro de um peito que se torna mais pequeno para dentro do tempo que há-de para sempre aumentar. Um dia a saudade será diamante e serás o bem mais precioso que não possuo. Até lá serei nada.

Os astrólogos dizem que o Universo é feito maioritariamente de matéria negra – de algo a que a nossa compreensão básica chama de vazio – e que, quem sabe, é nela mesma que estão as raízes do tudo. Alegremos-nos por fazer parte de um Universo maior.


Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento    




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