O
maior paradoxo da própria linguagem, encontra-se ironicamente no facto de que,
mesmo quando queremos criticar o valor das palavras, usamos essas mesmas ímpias
palavras para as denegrir, ousamos dizer, acabando por morrer do nosso próprio
veneno.
Ao
longo das páginas que lentamente se sucedem, temos vindo a tecer considerações
relativas ao papel genético que a linguagem desempenha no ADN humano. Isto dever-se-á sobretudo ao facto de encontrarmos na
linguagem e na sua volúvel arbitrariedade, a razão para os constantes
desentendimentos, para os confrontos, para o caminho de horror com que a
humanidade tem manchado as páginas áureas do planeta Terra, como que culpando
as palavras pelos pecados que nascem no pensamento de cada homem e que depois
se repercutem nos destinos do globo. Contudo, e em cada Contudo existe sempre
um porém, tal e qual como em cada alma existirá uma outra por descobrir,
existem ainda argumentos que não consideramos convenientemente.
Algures
no meio académico do estudo da linguagem existem teorias relativas à mesma, que
nos levam a considerar que, a certo ponto da história existiu uma língua
original, tal e qual como noutras áreas se considera da mesma forma o pecado. Os
argumentos que parecem corroborar a existência desta língua que terá sido
falada pelos primeiros homens e que depois de terá ramificado nas várias
línguas que escreveram e escrevem o conto da humanidade, são as semelhanças que
encontramos em palavras com igual significado, em diferentes línguas antigas. Tomando
o exemplo da palavra Irmão, que deriva da palavra do latim frãder, vemos que esta última tem enormes semelhanças com a mesma
palavra bhrãtãr que deriva do
sânscrito, tal como a palavra brothar
que advém do gótico. Se tais palavras, e como estas muitas outras, têm tais
semelhanças e um igual significado mental, sendo que cada uma destas
pertencente a uma respectiva língua falada por um povo que não tinham acesso às
outras línguas, não poderemos então considerar estas semelhanças meras
coincidências, e como tal, poderemos assumir que terá existido uma língua
original que posteriormente deu origem a estas. Tendo este factor em conta, e
olhando para o que nos diz o comparativista alemão August Schleicher, que cada
língua funciona com um organismo natural que nasce, cresce, desenvolve-se,
envelhece e finalmente morre, podemos por fim concluir que a língua, vai-se
corrompendo e degradando, perdendo o funcionando perfeito que tinha, sendo
então plausível conjecturar que é precisamente na língua primitiva que os
primeiros homens falavam, que se encontra o segredo da linguagem perfeita.
No
fim, todos estes afluentes de pensamento em que nos deixamos embrenhar para
explicar aquilo que o presente nos mostra e que a racionalidade não justifica,
servem para concluir que a linguagem, no seu estado mais unitário, ou seja, as
palavras são aquilo que fazemos delas, por este exacto motivo, quando nos
referimos à imperfeição da linguagem, queremos senão confessar que, sendo a
linguagem um reflexo de quem a usa, a imperfeição é o espelho de quem somos.
Não poderemos voltar àquele estado primitivo perfeito, se é que alguma vez ele
de facto existiu, mas poderemos sempre cerrar as palavras, mergulhar no
silêncio e ouvir o que dentro de cada um palpita, fazendo por encontrar na
fonte que jorra das nascentes virgens do âmago, o código fonético de uma
irmandade que urge em impor-se, para que assim, possamos olhar os olhos de cada
semelhante e ver nele o irmão que o passar do tempo parece ter apagado, dando
assim ao mundo a palavra que lhe confere, permitindo que todos os seres possam
por fim viver em harmonia naquilo a que mentalmente assumiríamos como um
verdadeiro planeta, uma verdadeira casa.
Não
esqueçamos nunca, uma gota de orvalho resplandecendo na pétala branca de um
novo nascer de dia, é e sempre foi uma simples gota de orvalho que marulha
entre as enormes belezas que enchem o caderno natural, simples dizemos, mas
absoluta, cada simples unidade, está intrinsecamente ligada com os veios de
todas as outras, cabe à Consciência de cada um, olhar essa simples gota de
orvalho e compreender o núcleo da sua importância, aceitando toda a sua beleza
e todo o seu esplendor, para que assim, cada simples gota de orvalho tenha o
seu lugar no mundo e para que as gotas lacrimejantes do presente revelem o seu
verdadeiro valor.
Olhámos
o mundo pela janela de um ecrã que se expande numa teia infindável de
diferentes histórias. Se pudéssemos ler todas as histórias do Livro de Tempo,
veríamos que ao ser humano corresponde somente uma ténue fatia. Quando o primeiro
Homo marcou as suas pegadas no caderno do solo natural, milhões de histórias
teriam já calcado essa mesma porção de terra, fazendo do homem, mais um entre
os seres da natureza. Não iremos afirmar que a natureza é mais importante que o
homem, não que não seja verdade, mas bem sabemos o quanto não gostamos de ser
inferiorizados em relação ao que quer que seja, porém, não poderemos concordar
que seja o homem, mais importante que a natureza. Tudo se resume a isto.
Vítor Pereira
O Coleccionador de Lágrimas