Vítor Pereira

sábado, 27 de julho de 2013

Babel e a Linguagem Perdida

O maior paradoxo da própria linguagem, encontra-se ironicamente no facto de que, mesmo quando queremos criticar o valor das palavras, usamos essas mesmas ímpias palavras para as denegrir, ousamos dizer, acabando por morrer do nosso próprio veneno.
Ao longo das páginas que lentamente se sucedem, temos vindo a tecer considerações relativas ao papel genético que a linguagem desempenha no ADN humano. Isto dever-se-á sobretudo ao facto de encontrarmos na linguagem e na sua volúvel arbitrariedade, a razão para os constantes desentendimentos, para os confrontos, para o caminho de horror com que a humanidade tem manchado as páginas áureas do planeta Terra, como que culpando as palavras pelos pecados que nascem no pensamento de cada homem e que depois se repercutem nos destinos do globo. Contudo, e em cada Contudo existe sempre um porém, tal e qual como em cada alma existirá uma outra por descobrir, existem ainda argumentos que não consideramos convenientemente.
Algures no meio académico do estudo da linguagem existem teorias relativas à mesma, que nos levam a considerar que, a certo ponto da história existiu uma língua original, tal e qual como noutras áreas se considera da mesma forma o pecado. Os argumentos que parecem corroborar a existência desta língua que terá sido falada pelos primeiros homens e que depois de terá ramificado nas várias línguas que escreveram e escrevem o conto da humanidade, são as semelhanças que encontramos em palavras com igual significado, em diferentes línguas antigas. Tomando o exemplo da palavra Irmão, que deriva da palavra do latim frãder, vemos que esta última tem enormes semelhanças com a mesma palavra bhrãtãr que deriva do sânscrito, tal como a palavra brothar que advém do gótico. Se tais palavras, e como estas muitas outras, têm tais semelhanças e um igual significado mental, sendo que cada uma destas pertencente a uma respectiva língua falada por um povo que não tinham acesso às outras línguas, não poderemos então considerar estas semelhanças meras coincidências, e como tal, poderemos assumir que terá existido uma língua original que posteriormente deu origem a estas. Tendo este factor em conta, e olhando para o que nos diz o comparativista alemão August Schleicher, que cada língua funciona com um organismo natural que nasce, cresce, desenvolve-se, envelhece e finalmente morre, podemos por fim concluir que a língua, vai-se corrompendo e degradando, perdendo o funcionando perfeito que tinha, sendo então plausível conjecturar que é precisamente na língua primitiva que os primeiros homens falavam, que se encontra o segredo da linguagem perfeita.
No fim, todos estes afluentes de pensamento em que nos deixamos embrenhar para explicar aquilo que o presente nos mostra e que a racionalidade não justifica, servem para concluir que a linguagem, no seu estado mais unitário, ou seja, as palavras são aquilo que fazemos delas, por este exacto motivo, quando nos referimos à imperfeição da linguagem, queremos senão confessar que, sendo a linguagem um reflexo de quem a usa, a imperfeição é o espelho de quem somos. Não poderemos voltar àquele estado primitivo perfeito, se é que alguma vez ele de facto existiu, mas poderemos sempre cerrar as palavras, mergulhar no silêncio e ouvir o que dentro de cada um palpita, fazendo por encontrar na fonte que jorra das nascentes virgens do âmago, o código fonético de uma irmandade que urge em impor-se, para que assim, possamos olhar os olhos de cada semelhante e ver nele o irmão que o passar do tempo parece ter apagado, dando assim ao mundo a palavra que lhe confere, permitindo que todos os seres possam por fim viver em harmonia naquilo a que mentalmente assumiríamos como um verdadeiro planeta, uma verdadeira casa.
Não esqueçamos nunca, uma gota de orvalho resplandecendo na pétala branca de um novo nascer de dia, é e sempre foi uma simples gota de orvalho que marulha entre as enormes belezas que enchem o caderno natural, simples dizemos, mas absoluta, cada simples unidade, está intrinsecamente ligada com os veios de todas as outras, cabe à Consciência de cada um, olhar essa simples gota de orvalho e compreender o núcleo da sua importância, aceitando toda a sua beleza e todo o seu esplendor, para que assim, cada simples gota de orvalho tenha o seu lugar no mundo e para que as gotas lacrimejantes do presente revelem o seu verdadeiro valor. 

Olhámos o mundo pela janela de um ecrã que se expande numa teia infindável de diferentes histórias. Se pudéssemos ler todas as histórias do Livro de Tempo, veríamos que ao ser humano corresponde somente uma ténue fatia. Quando o primeiro Homo marcou as suas pegadas no caderno do solo natural, milhões de histórias teriam já calcado essa mesma porção de terra, fazendo do homem, mais um entre os seres da natureza. Não iremos afirmar que a natureza é mais importante que o homem, não que não seja verdade, mas bem sabemos o quanto não gostamos de ser inferiorizados em relação ao que quer que seja, porém, não poderemos concordar que seja o homem, mais importante que a natureza. Tudo se resume a isto.

Vítor Pereira
O Coleccionador de Lágrimas