Vítor Pereira

sábado, 30 de maio de 2015

Poema Borboleta



Somos estrangeiros de todas as coisas que os outros vêem em nós. Ao mesmo tempo somos prisioneiros de tudo o que somos e escravos do que não podemos ser. No meio de tudo isto fica a poesia de todas as palavras que deitámos para fora dos desejos, em linha recta para o fundo de nós. Jogámos ao esconde-esconde da vida a contar idades em pétalas de mal-me-quer como quem espera pelo arco-íris onde não existe chuva nem sol. A felicidade é uma alegria possível em passos de dança que bebemos com os olhos – é mais difícil o desejo de ser-se feliz do que o é ser-se feliz de facto. Porquê? Entre todas as águas que nos podem avivar a sede, preferimos sempre as que nos salgam o preto e branco dos lábios e nos fogem pelos riachos do paladar confuso das mãos.

Quando comprámos um par novo de calçado, apropriámo-nos de todos os caminhos que este poderia dar nos pés de outra pessoa. Acontece o mesmo quando damos a mão a alguém – quase sempre existe um par de mãos que se perde dos pincéis de tacto e se apaga no presente de um outro futuro qualquer. Movimento mármore.

Deram-nos olhos para podermos ser cegos;

E eu não soube aprender que o essencial à vida não foi feito para os olhos – quem duvide que experimente sorrir o rosto ao sol fresco da Primavera, e se deixe depois abrir os olhos para o ver. O pior cego é o que quer ver. Um som surdo de movimento e uma imagem muda de cor é quanto basta para que vejamos o chão como quem se olha ao espelho – o espaço que calcas és tu.
Dizem os cientistas que o cérebro humano é equivalente ao Universo – gastámo-lo em trivialidades, a um e ao outro:

Não precisa de poesia quem nasceu para ser poema
Precisa de poesia quem viveu para sofrer poeta
Entre um poema e um poeta existe todo o espaço do Universo – 
O espaço maior entre dois objectos é quando se tocam. 

P.S.: 
Todos os poetas acabam assassinados pela poesia que os matou; 
Ninguém se atreve a matar um poema. 
Nenhum poema devia viver mais que uma borboleta.

Vítor Pereira 
Crónicas do Homem de Vento

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sorriso Semente


Hoje sonhei contigo. Sonhar contigo é visitar-me, apenas isso, tudo isso. Só me apercebi que sonhei contigo quando, muito depois de acordar, senti o perfume do final da tarde a chamar pela terra que tem sede de noite – como eu já tive de ti. Não é difícil viver no deserto, com o tempo a gente habitua-se, aprendemos a procurar pelo frio como quem vê sorrisos onde só lágrimas refrescam a face quente. O tempo é areia que escorre pelas mãos que querem água e eu… eu sou os passos que o vento apagou por trás de mim. Hoje sonhei contigo. 

Nenhuma ideia me parece pior do que uma memória que não quer morrer: 
Como se mata a recordação de um abraço que ficou por sonhar (?); 
Como se apaga o vazio do inteiro por gastar?

Viver vão sendo todas as coisas que me façam o peito bater por algo que não sejas tu. Sonho-te a dormir. E embora te veja dormir dentro do sonho que é meu, não me permito tocar-te – existem coisas que nem em sonhos nos pertencem. Sonho-te a dormir e só me apercebo que há algo de errado quando, já muito depois de acordar, me recordo das memórias que apanham boleia das flores de primavera que se atiram ao sol a brincar à vida. Sorriso semente. O pior das memórias é tudo o que elas não têm. E eu não me lembro como era a tristeza antes de ti – tenho saudades da tristeza de antes de ti. Do que mais tenho saudades é de tudo o que não me recordo de antes de ti. O passado é um quadro de areia deixado ao vento, e eu, sou os passos que apagaste à minha frente.

Fumei o cigarro de uma música e foi plantar amnésias.
Sonhar também é insónia.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Carvão Rubro



Que nome devemos dar ao lugar onde se acaba o corpo e a ausência começa? Limbo..? Até os homens mais descrentes sentem a necessidade de uma alma. Exista ou não, o problema da alma é que é sempre tarde demais. A alma é sempre tarde de mais. Quantas ausências são precisas para que entendamos que cada alma pertence fora do corpo que lhe foi atribuído? Cada alma pertence fora do corpo que lhe foi entregue ao nascer. Paz – paz são todos os raros momentos em que a alma vem visitar o corpo. Por norma é um outro corpo que a traz a nós. Quando a alma nos visita, sentimo-nos fora de nós, talvez por isso mesmo, por sermos estranhos ao estado inteiro. 

A solidão é uma linha recta que caminhámos por montanhas dentro de nós. Limbo. O amor é uma curva apertada que se esbarra no peito sem travões – tão fugaz que dura para sempre. A maior parte dos Homens deseja um amor que dure para sempre sem se aperceber do risco de o Para Sempre ser um amor sozinho. Carvão rubro. 

Carta para a minha alma:
Se me estiveres a ler, lembra-te das notas pretas do piano – chamam-se acidentes e fazem sons tão bonitos tanto quanto o fazem as notas brancas. Preto e branco pode bem ser uma fotografia, ou um filme antigo, mas preto e branco também é música. E isto que quer dizer? Fazes-me falta. Não te peço que voltes, não espero que voltes. Mas, se por ventura do acaso voltares, traz o piano que me levaste e mata a música que me deixaste e, por um segundo, deixa-me sair de mim. Mas se vieres, por favor, vem sozinha, para que não tenha outra vez, de vos ver partir às duas – a ti e a quem te devolveu a mim – e ficar eu, de novo às voltas dentro de uma linha recta, por montanhas dentro de mim.


Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Diamante Saudade

Não ser nada é das tarefas mais extenuantes que podem existir. Às vezes ponho-me a pensar naquela frase da literatura barata – “Sou metade sem ti” – e questiono-me como se pode reduzir o vazio a metade de si mesmo… A profundidade das coisas reduz-se quase sempre ao oco de toda a sua parte visível – ou seja (?) – não nos vale de nada um mergulho para descobrir o motivo de uma tristeza qualquer, quando este está ali à tona, tão visível que seria preciso afogá-lo – ao motivo, entenda-se – para que o pudéssemos ocultar. Se calhar é isto mesmo – a antítese da alquimia – mergulhámos a fundo para dentro de nós, não pela procura, tão pouco pela esperança do encontro, mas pela ocultação de tudo o que o olhar da lágrima alcança.

Vá. Pensando agora melhor, concluo que o nada se torna maior à medida que se torna mais pequeno. Se compararmos o nada – todos os seus fragmentos – aos átomos de carbono, caminhámos para o diamante. E é precisamente aqui que a ciência contraria o conhecimento geral – andámos de mãos dadas com a solidão a dizer coisas de pequenez como quem acredita, porque sempre assim nos foi ensinado, que à medida que algo diminui, este se torna mais pequeno, quando, na maior parte dos casos, o que acontece é que a redução cresce por compactação. É essa saudade que tenho de ti. Todos os dias se reduz para dentro de um peito que se torna mais pequeno para dentro do tempo que há-de para sempre aumentar. Um dia a saudade será diamante e serás o bem mais precioso que não possuo. Até lá serei nada.

Os astrólogos dizem que o Universo é feito maioritariamente de matéria negra – de algo a que a nossa compreensão básica chama de vazio – e que, quem sabe, é nela mesma que estão as raízes do tudo. Alegremos-nos por fazer parte de um Universo maior.


Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento    




domingo, 17 de maio de 2015

De que cor é o perfume da saudade?

A memória não se limita a ser um presente do passado. Acima de tudo, a memória acaba por ser um lugar, um espaço que toma conta do vazio à noite. O que a memória, ou as memórias, têm de mais curioso é o elas pertencerem-nos, mas, em grande parte dos casos, nós não lhes pertencemos mais – no meu caso em particular é como ver-me espectador de mim próprio, num filme em que, não obstante ter sido personagem principal, fui actor de mim mesmo. Não pertencemos às memórias que nos pertencem, ainda que estas sejam a projecção de algo real, de algo que existiu, nós somos projecções de algo que não é mais. E a memória fica, assim, um lugar à noite dentro do mundo que dorme.

Mas à noite, as memórias são como os gatos, todas elas são pardas. E eu, por tudo quanto é mais sagrada, não consigo recordar-me do perfume da terra molhada quando chovia pelos caminhos que me levavam a ti. Os caminhos são os mesmos, a terra e a chuva também, iguais ao que eram muito antes de eu os percorrer, e tu, por certo também andarás por aí, por alguns dos antigos lugares e por muitos outros novos, mas eu, por mais que faça, não consigo reencontrar o da terra molhada quando chovia pelos caminhos que me levavam a ti. Se tudo continua igual, foi eu que mudei – e os caminhos de terra molhada e a chuva por ela levada, ainda que os percorra todos, ainda que copie os passos que deixei desenhados no chão, esses não me levam mais a ti. Nenhum caminho pode dar a Roma se Roma deixar de ser tua.

Os sons são o castelo de cartas que ainda me permitem colocar o velho gira-sonhos a funcionar para te ouvir sussurrar o nome em que me tornei estranho… Tudo o resto são memórias que sobreviveram a um passado onde não sobrevivi. 

De que cor é o perfume da Saudade?




Vítor Pereira 
Crónicas do homem de vento