Vítor Pereira

domingo, 7 de junho de 2015

Comprimido-Prosa

Perdi noção do tanto tempo que passou, do tanto tempo em que procurei substituir-te, algo, alguém que pudesse substituir-me de ti. O mesmo tempo que levei a entender que não existe forma de preencher o espaço que o vazio ocupa – o vazio é insubstituível, porque, no final das contas, se colocarmos algo em cima do vazio, estamos apenas a preenchê-lo com matéria, mas ele, o vazio, continua lá – a matéria envelhece, ou simplesmente cansámo-nos dela, livrámo-nos dela, e o vazio volta a ocupar o lugar que nunca deixou. 
  
Não te aceitaria de volta se te pudesse ressuscitar. Da mesma forma que não posso matar o que sobrou de ti por dentro que sobrou de mim. Uma fotografia é como uma música parada no tempo, não existe forma de mudar nenhum dos três – no entanto vemo-los mudar por dentro dos nossos olhos e quase nunca nos apercebemos que fomos nós quem mudou e que até a mais real das imagens é moldada sobre a dança da chuva que seca o peito. E eu olho para todas as imagens com que me iludias com felicidade e recordo-me das recordações que tinha de ti antes de te tatuar a preto e branco nos lençóis onde a minha carne se deita para repousar de ti. Pó de flor. 

O maior problema de todas as coisas que não se podem tocar, é o vivermos abraçados a elas, e, no processo, não nos sobrar mão que possa agarrar o mundo capaz de cultivar a terra que sobrevive em nós. Comprimido-Prosa. Não obstante, qualquer coisa. Procuro sempre um “mas” como quem mergulha ao céu à procura de ar, como desculpa para existir, ser. Guardo de ti tudo quanto não posso deitar fora, como um cidadão do mundo que sobrevive a si através dos outros – deito as alegrias à chuva e não guardo nenhuma para mim. E sou feliz assim.

Escrevo prosa como quem procura a melhor frase para rimar o final de um poema e as escreve a todas, sem encontrar nenhuma.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

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