A última lágrima não é a que se chora por uma última vez,
uma última vez. A derradeira, a lágrima final, é aquela que fica por chorar –
que se guarda dentro do peito cansado de ser triste. Então porque lhe chamo de
última? Porque é a que será para sempre. A que ficará sempre por chorar, que
estará presente ao acordar, durante os dias chuvosos de Inverno e os longos
dias de verão; a que corre as estações do luar; a que está presente no sorriso
ocasional e dentro das outras tristezas triviais.
A última lágrima é a que te obriga a ficar vivo quando a
vida não te quer, e quando retribuis a vida não a querendo de volta. A última
lágrima é uma apólice de seguro conservada no sal do espírito onde outrora
foste a ilusão do que agora se apaga. A última lágrima é abismo que une o corpo
à alma quando a alma se mudou já para outro lugar aonde não pertences.
Em suma, a última lágrima é o cofre onde guardas tudo o
que podias ter sido, é a vida que teria feito a morte feliz, quando viesse. É o
adeus impossível, o momento irrepetivel, o silêncio desdito, a palavra desfeita
para fora do verbo. A última lágrima é o que agarras quando abandonaste tudo o
resto, quando tudo o resto te abandonou. Valessem de algo os sinónimos e
poderia bem chamar-lhe o mundo, casa sem tecto, aperto fora do abraço.
A última lágrima é a despedida de ficares em ti, sempre.
Quem sabe venha o dia, o momento não sonhado, em que a possas por fim
abandonar, e descansar de ti.
Vítor Pereira
