Vítor Pereira

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Última Lágrima



            A última lágrima não é a que se chora por uma última vez, uma última vez. A derradeira, a lágrima final, é aquela que fica por chorar – que se guarda dentro do peito cansado de ser triste. Então porque lhe chamo de última? Porque é a que será para sempre. A que ficará sempre por chorar, que estará presente ao acordar, durante os dias chuvosos de Inverno e os longos dias de verão; a que corre as estações do luar; a que está presente no sorriso ocasional e dentro das outras tristezas triviais.
            A última lágrima é a que te obriga a ficar vivo quando a vida não te quer, e quando retribuis a vida não a querendo de volta. A última lágrima é uma apólice de seguro conservada no sal do espírito onde outrora foste a ilusão do que agora se apaga. A última lágrima é abismo que une o corpo à alma quando a alma se mudou já para outro lugar aonde não pertences.
            Em suma, a última lágrima é o cofre onde guardas tudo o que podias ter sido, é a vida que teria feito a morte feliz, quando viesse. É o adeus impossível, o momento irrepetivel, o silêncio desdito, a palavra desfeita para fora do verbo. A última lágrima é o que agarras quando abandonaste tudo o resto, quando tudo o resto te abandonou. Valessem de algo os sinónimos e poderia bem chamar-lhe o mundo, casa sem tecto, aperto fora do abraço.

            A última lágrima é a despedida de ficares em ti, sempre. Quem sabe venha o dia, o momento não sonhado, em que a possas por fim abandonar, e descansar de ti. 

Vítor Pereira