Vítor Pereira

domingo, 17 de maio de 2015

De que cor é o perfume da saudade?

A memória não se limita a ser um presente do passado. Acima de tudo, a memória acaba por ser um lugar, um espaço que toma conta do vazio à noite. O que a memória, ou as memórias, têm de mais curioso é o elas pertencerem-nos, mas, em grande parte dos casos, nós não lhes pertencemos mais – no meu caso em particular é como ver-me espectador de mim próprio, num filme em que, não obstante ter sido personagem principal, fui actor de mim mesmo. Não pertencemos às memórias que nos pertencem, ainda que estas sejam a projecção de algo real, de algo que existiu, nós somos projecções de algo que não é mais. E a memória fica, assim, um lugar à noite dentro do mundo que dorme.

Mas à noite, as memórias são como os gatos, todas elas são pardas. E eu, por tudo quanto é mais sagrada, não consigo recordar-me do perfume da terra molhada quando chovia pelos caminhos que me levavam a ti. Os caminhos são os mesmos, a terra e a chuva também, iguais ao que eram muito antes de eu os percorrer, e tu, por certo também andarás por aí, por alguns dos antigos lugares e por muitos outros novos, mas eu, por mais que faça, não consigo reencontrar o da terra molhada quando chovia pelos caminhos que me levavam a ti. Se tudo continua igual, foi eu que mudei – e os caminhos de terra molhada e a chuva por ela levada, ainda que os percorra todos, ainda que copie os passos que deixei desenhados no chão, esses não me levam mais a ti. Nenhum caminho pode dar a Roma se Roma deixar de ser tua.

Os sons são o castelo de cartas que ainda me permitem colocar o velho gira-sonhos a funcionar para te ouvir sussurrar o nome em que me tornei estranho… Tudo o resto são memórias que sobreviveram a um passado onde não sobrevivi. 

De que cor é o perfume da Saudade?




Vítor Pereira 
Crónicas do homem de vento 

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