Vítor Pereira

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Fonógrafo Perfume

Faltam poucas horas para o Outono. No meu quarto vestido de folhas velhas que caem da parede onde as prendo agrafadas ao desassossego que me prende - como janelas para o escuro de um quadro pincelado com vontades que se renderam à preguiça - dizer que faltam poucas horas para o Outono é o mesmo que dizer que falta pouco para que chegue o notário oficializar o que sempre foi, o que sempre é. Não obstante, a chegada do Outono que aqui já estava, faz-me pensar em todas as coisas que ainda possa escrever sem que tenha de me abster do silêncio em que te fiz monge. É um exercício difícil - procurar dar forma ao esquecimento com que todos os dias apunha-lo a memória - fazer do cansaço alegria e dar solidão ao passado.

Acho que o Outono está nesta última frase que escrevi - assim como tu - dar solidão ao Passado. Existe uma beleza intrínseca na morte de todas as coisas. O Outono é a morte da Natureza de todas as coisas e, como o amor a uma outra coisas qualquer, despede-se vestido de cores que são vida em forma de saudade, torpor sôfrego em forma de tela -fonógrafo perfume. O Outono existe em tudo o que este deixou para trás - é um pouco como todas as vidas que vamos abandonando para que nos seja permitido ultrapassar as mortes que o coração morre antes de deixar de bater - e é por isto mesmo que o Outono nos enche de uma melancolia quase alegre, de uma paz que é escura mas permite a frincha que verte o minúsculo feixe de luz  de onde montámos os fragmentos de todos os espelhos com que hoje nos fazemos presente.

É pálido o desejo de te procurar. A anemia do sótão vascular permite-se a pouco mais que ao vislumbre do vislumbre do que costumavas não ser e do que agora não és - um pouco de tudo guardado num pouco de nada. Ainda pensei - durante todos os dias de Outono a que o notário não assistiu - apagar as letras do nome onde te escondi de mim, e construir um comboio de corda (como dizia o mestre Pessoa) que te levasse para longe de mim, até que me apercebi de que é em mim, dentro da chuva-de-artificio que roubaste em mim... dentro de mim é onde és mais longe. Dentro de mim é onde não te posso tocar.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento