Vítor Pereira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Big Bounce


Big Bounce

I’m shipping into a star
Tumbling down
Walking out
Bleeding the words away
From you

I’m crawling inside my skin
Motionless, careless
Soulless but fearless
Less and less
Further less
Into something new

A plastic soul
A new black hole
Drinking my heart away –
Reversing time

Chorus

I´m spinning down
I’m crawling out:
I’m crawling and falling away –
Crawling in, falling out
Into this place, away
From you

‘Cause this is the end
Of all poetry
And I am the end of my
Self-misery

No place to stay
Nowhere to go
I have only a pocket
Of stardust and pain
And the universe singing:
Tack, tick, tack, tick

(Hearts collapsing
Into a massive super nothing)

Chorus

I´m spinning down
I’m crawling out:
I’m crawling and falling away –
Crawling in, falling out
Into this place, away
From you
(...)
I´m spinning down
I’m crawling out:
I’m crawling and falling away –
Crawling in, falling out
Into this place, away
Back… to you

Vítor Pereira

domingo, 6 de dezembro de 2015

Fio-Luz



Um dia dia haveremos de nos tornar memórias das nossas memórias. E elas, como nós agora, irão lembrar-se de nós sem nos reconhecerem. Seremos lágrima pendente a tactear o fio onde outrora arriscámos a vida em troca de um passo equilibrado que viesse oferecer  um abraço ao abismo em que nos havíamos tornado. Não caímos, não perdemos tão pouco o equilíbrio (...) rasgou-se apenas o fio e o mundo tornou-se ausente de nós. 

Um dia, quem sabe, haveremos de nos cruzar num olhar limpo de mágoa - e não saberemos que o tempo apagou os mundos que a um do outro roubámos, e não saberemos que o céu permanece igual ao que era antes de vermos nelas o brilho das página que quisemos oferecer à poesia do abraço que alugámos às pedras que calcámos ausentes um no outro. 

Um dia haveremos de ter Saudades do vento e da chuva; do Outono que morria às nossas mãos; do silêncio que vivia nas palavras que não tivemos de dizer; do chão onde nos deitámos de olhos fechados para olhar por dentro dos caminhos de pele que percorremos em contra-mão (...) haveremos de ter saudades de tudo, sem nos recordarmos que um dia existimos dentro um do outro. E o mundo há-de continuar, como continua hoje, paralelo a nós.

E haveremos de coexistir, alheios um do outro, entregues aos papeis que não soubemos rasgar. E havemos de ser todas as coisas que não pudemos ser nos dias em que nos assombrávamos com o sorriso das mãos que não eram nossas para enlaçar. 

E um dia que o mundo se acabe, acabaremos junto com ele, ausentes um do outro (...) e, enquanto as sirenes tocarem por todas a coisas vivas, já os sinos terão tocado por nós, sem que tenhamos sido capazes de os ouvir por fora do silêncio onde outrora fomos grito...

Vítor Pereira
Crónica do Homem de Vento

sábado, 21 de novembro de 2015

Fósforo-Folha

Faz-me falta a saudade; Faz-me falta o Outono que chove das árvores por entre os dias frios de sol envolvidos no torpor do toque que respira o nome que não se pode dizer. Faz-me falta o silêncio de não te saber verdade oculta dentro dos momentos que o passado não fez vida. Não me recordo se chovia quando a pele se abandonou do toque que o corpo sôfrego exigia, não me recordo, lembro-me apenas da chuva que o dia seguinte trouxe sem levantar bilhete de retorno ao peito e à alma e ao corpo de todas as coisas que a Saudade, essa que agora me falta, tomou por empréstimo.


Quantos dias serão precisos para demolir as palavras que a caligrafia das montanhas esqueceu para lá do mar que foge entre os dedos descalços de tinta?

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Fonógrafo Perfume

Faltam poucas horas para o Outono. No meu quarto vestido de folhas velhas que caem da parede onde as prendo agrafadas ao desassossego que me prende - como janelas para o escuro de um quadro pincelado com vontades que se renderam à preguiça - dizer que faltam poucas horas para o Outono é o mesmo que dizer que falta pouco para que chegue o notário oficializar o que sempre foi, o que sempre é. Não obstante, a chegada do Outono que aqui já estava, faz-me pensar em todas as coisas que ainda possa escrever sem que tenha de me abster do silêncio em que te fiz monge. É um exercício difícil - procurar dar forma ao esquecimento com que todos os dias apunha-lo a memória - fazer do cansaço alegria e dar solidão ao passado.

Acho que o Outono está nesta última frase que escrevi - assim como tu - dar solidão ao Passado. Existe uma beleza intrínseca na morte de todas as coisas. O Outono é a morte da Natureza de todas as coisas e, como o amor a uma outra coisas qualquer, despede-se vestido de cores que são vida em forma de saudade, torpor sôfrego em forma de tela -fonógrafo perfume. O Outono existe em tudo o que este deixou para trás - é um pouco como todas as vidas que vamos abandonando para que nos seja permitido ultrapassar as mortes que o coração morre antes de deixar de bater - e é por isto mesmo que o Outono nos enche de uma melancolia quase alegre, de uma paz que é escura mas permite a frincha que verte o minúsculo feixe de luz  de onde montámos os fragmentos de todos os espelhos com que hoje nos fazemos presente.

É pálido o desejo de te procurar. A anemia do sótão vascular permite-se a pouco mais que ao vislumbre do vislumbre do que costumavas não ser e do que agora não és - um pouco de tudo guardado num pouco de nada. Ainda pensei - durante todos os dias de Outono a que o notário não assistiu - apagar as letras do nome onde te escondi de mim, e construir um comboio de corda (como dizia o mestre Pessoa) que te levasse para longe de mim, até que me apercebi de que é em mim, dentro da chuva-de-artificio que roubaste em mim... dentro de mim é onde és mais longe. Dentro de mim é onde não te posso tocar.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Pétala-Espinho

Faltam sete dias para o verão. O som do Inverno que sobrevive lá fora, atravessa os telhados lavados de chuva. Alguém se esqueceu do tempo. Nenhuma metáfora resiste ao tempo, e dele, fica apenas o que fica. Bem, hoje venho lembrar-te de pele que esqueceste aqui. A pele é impermeável à água, mas não à chuva. Existe algo na chuva que morre quando deixa de o ser, o mesmo se passa com a pele que lembra de ti o toque molhado da Primavera que se foi contigo. A terra molhada que não me secou de ti. 

A pele. A pele também se veste – veste-se todos os dias – e não temos, nós que a vestimos, a noção de que a pele é das roupas mais difíceis de usar. Quantas são as vezes em que a pele não nos assenta bem, não nos quer pertencer. Quantas são as vezes em que nos sentimos mal dentro da pele que nos pertence? Alguém se esqueceu no tempo. Diz-se que ao olhar as estrelas, estamos literalmente a olhar para o passado, mas, quantas são as vezes em que dou por mim a olhar para o céu estelar e para todos os futuros que ficaram por ser presente. Espaço e tempo, parados à volta das memórias que desconstruímos enquanto, alheios, apagámos todos os planos que o passado fez nada.

Os sonhos e o amor são feitos do mesmo orvalho opaco com que se pára o tempo. Dentro de um sonho, só nos apercebemos que algo está mal, que algo não faz sentido, depois de nos deitarmos para fora dele, acordar. Enquanto sonhámos, qualquer sonho é realidade impermeável aos véus do agora. O amor é a mesma coisa, embora seja tragicamente pior, porque dele, não nos é permitido acordar, apenas morrer uma morte vigilante em todos os espinhos de um cigarro que foi cancro antes de ser fumo. A morte de um amor, ou de um sonho, ou de uma coisa qualquer, é uma maquilhagem – fotografia cara e coroa de tudo o que foi – toda a história se torna mais bela e invariavelmente mais triste. Pétala-Espinho. 

Pudesse eu, olhar para as estrelas, e ver-me dentro de passado que me cabia em ti e eu céu seria mais escuro por ver-me luzir com mais brilho. O que sobra do tempo parado em nada e o espaço vazio de si é o que somos. Somos isso. 

O passado não volta atrás.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

domingo, 7 de junho de 2015

Comprimido-Prosa

Perdi noção do tanto tempo que passou, do tanto tempo em que procurei substituir-te, algo, alguém que pudesse substituir-me de ti. O mesmo tempo que levei a entender que não existe forma de preencher o espaço que o vazio ocupa – o vazio é insubstituível, porque, no final das contas, se colocarmos algo em cima do vazio, estamos apenas a preenchê-lo com matéria, mas ele, o vazio, continua lá – a matéria envelhece, ou simplesmente cansámo-nos dela, livrámo-nos dela, e o vazio volta a ocupar o lugar que nunca deixou. 
  
Não te aceitaria de volta se te pudesse ressuscitar. Da mesma forma que não posso matar o que sobrou de ti por dentro que sobrou de mim. Uma fotografia é como uma música parada no tempo, não existe forma de mudar nenhum dos três – no entanto vemo-los mudar por dentro dos nossos olhos e quase nunca nos apercebemos que fomos nós quem mudou e que até a mais real das imagens é moldada sobre a dança da chuva que seca o peito. E eu olho para todas as imagens com que me iludias com felicidade e recordo-me das recordações que tinha de ti antes de te tatuar a preto e branco nos lençóis onde a minha carne se deita para repousar de ti. Pó de flor. 

O maior problema de todas as coisas que não se podem tocar, é o vivermos abraçados a elas, e, no processo, não nos sobrar mão que possa agarrar o mundo capaz de cultivar a terra que sobrevive em nós. Comprimido-Prosa. Não obstante, qualquer coisa. Procuro sempre um “mas” como quem mergulha ao céu à procura de ar, como desculpa para existir, ser. Guardo de ti tudo quanto não posso deitar fora, como um cidadão do mundo que sobrevive a si através dos outros – deito as alegrias à chuva e não guardo nenhuma para mim. E sou feliz assim.

Escrevo prosa como quem procura a melhor frase para rimar o final de um poema e as escreve a todas, sem encontrar nenhuma.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espelho Mau



Será possível ao menos deitarmos fogo ao gelo que fizeram de nós? No dicionário nunca se encontra a equivalência da Saudade – a Saudade é um nome próprio que se apropria do nome de quem nos desapropriou de nós. Faz sentido? Pouco importa. Andámos sempre à volta do mesmo – coração círculo. Fogo – hoje quero falar-te do fogo como algo palpável. No meu dicionário, palpável é todo o sentido visível ao escuro do toque. E eu falo nas coisas como quem parece saber muito delas, quando no fundo falo nas coisas para tentar saber algo de mim. Espelho mau. 

Se formos capazes de abrir os ouvidos para o silêncio e enfrentar o toque palpável do violino, o que sobra é o encontro do arco com as cordas – fricção, vibração – e é como deitar fogo às recordações que guardámos com tanto carinho que não temos outra vontade senão matá-las com a mesma morte que estas nos dão a comer à vida – e ouvimo-las estalar; escuto-as estalar como troncos secos a dar luz ao Inverno de mim. Uma boa parte das estações são vividas no passado – tudo é memória de uma memória. A literatura é feita de comparações – usámos o “como” até à exaustão: “Eras vida – como morte que espera por se merecer” – e eu, que me gasto em comparações triviais, não sou capaz de te comparar a ti. Não tens comparação contigo, sim, não és comparável a ti. Foi aí que te perdi.

A melhor forma de se encontrar alguma coisa, sempre foi o deixar de procurar por ela. E eu quero tanto fazer as pazes com o Inverno que me vejo forçado a despedir-me do Adeus que todos os dias procuro dizer-te pela última vez, e, deixar-te ficar – aceitar-te todos os dias quando os pensamentos se deitam na cama e o dicionário da noite te traz na sombra da Saudade que se baptizou de ti. Aceitar-te todas as horas e deixar que te apagues, no teu tempo, no teu ritmo… e esperar que, no dia em que te vás de vez, sobre algum fogo… e um violino virgem de ti.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento