Vítor Pereira

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espelho Mau



Será possível ao menos deitarmos fogo ao gelo que fizeram de nós? No dicionário nunca se encontra a equivalência da Saudade – a Saudade é um nome próprio que se apropria do nome de quem nos desapropriou de nós. Faz sentido? Pouco importa. Andámos sempre à volta do mesmo – coração círculo. Fogo – hoje quero falar-te do fogo como algo palpável. No meu dicionário, palpável é todo o sentido visível ao escuro do toque. E eu falo nas coisas como quem parece saber muito delas, quando no fundo falo nas coisas para tentar saber algo de mim. Espelho mau. 

Se formos capazes de abrir os ouvidos para o silêncio e enfrentar o toque palpável do violino, o que sobra é o encontro do arco com as cordas – fricção, vibração – e é como deitar fogo às recordações que guardámos com tanto carinho que não temos outra vontade senão matá-las com a mesma morte que estas nos dão a comer à vida – e ouvimo-las estalar; escuto-as estalar como troncos secos a dar luz ao Inverno de mim. Uma boa parte das estações são vividas no passado – tudo é memória de uma memória. A literatura é feita de comparações – usámos o “como” até à exaustão: “Eras vida – como morte que espera por se merecer” – e eu, que me gasto em comparações triviais, não sou capaz de te comparar a ti. Não tens comparação contigo, sim, não és comparável a ti. Foi aí que te perdi.

A melhor forma de se encontrar alguma coisa, sempre foi o deixar de procurar por ela. E eu quero tanto fazer as pazes com o Inverno que me vejo forçado a despedir-me do Adeus que todos os dias procuro dizer-te pela última vez, e, deixar-te ficar – aceitar-te todos os dias quando os pensamentos se deitam na cama e o dicionário da noite te traz na sombra da Saudade que se baptizou de ti. Aceitar-te todas as horas e deixar que te apagues, no teu tempo, no teu ritmo… e esperar que, no dia em que te vás de vez, sobre algum fogo… e um violino virgem de ti.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

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