Vítor Pereira

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Uma ampulheta e um fá menor

Ganhei um medo terrível ao papel. E às palavras também – não às que tenho para dizer aos outros, sim às que escondo de mim. Por estes dias escrevi a última canção que tinha para te escrever – isto é mesmo que dizer que todas as canções que te escreva daqui em diante serão meras repetições embaladas por melodias diferentes, sinónimos em forma de som, lágrimas em forma de palavra. Não obstante, escrevi a última canção que tinha para te escrever, acaba com um tão banal “… and now it’s time to let you go”, banal sim, repetido em inúmeras canções, estou certo, ainda assim foi a primeira vez que a escrevi eu, com uma caneta e um Fá menor.

“Que frase forte” disse a miúda que canta algumas das minhas canções. Como se explica o sentido de uma canção e de uma vida a uma miúda com dezassete anos? Não se explica, “Que frase forte” disse ela, e eu sorri e segurei o coração na guitarra. “Vamos do último refrão, chegada essa parte farei o último acorde, deixas a guitarra respirar e dizes as palavras” disse-lhe eu com palavras parecidas a estas. E ela o fez, naturalmente, sem que tivesse de explicar o como ou o porquê, disse as palavras como quem as sente – despediu-se de ti por mim, despedi-me de ti com ela. “And now it’s time to let you go”.

É curioso com as pessoas dizem “a vida continua” precisamente quando esta está parada, estanque. Assim é. 

Voltou a chover.

Vítor Pereira



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