Vítor Pereira

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Felix Culpa


“Ah, como os mais simples dos homens são doentes e confusos e estúpidos ao pé da clara simplicidade e saúde em existir das árvores e das plantas!” 



Alberto Caeiro em “O Guardador de Rebanhos”





Existem coisas que, de tão natural que são, nem as apercebemos. E tão natural é ouvir falar dos problemas deste planeta, tão naturais são os nossos constantes abusos – e por nossos entenda-se, a humanidade – abusos que progressivamente tem vindo a mergulhar o planeta num mar convulso de repetidas desgraças, tão natural tudo isto é, que de Natural já a Natureza tem pouco.

Sejamos simples nas palavras, “Insustentável”, a própria palavra tornou-se isso mesmo, um espelho do seu próprio significado, o reflexo de um planeta que, como um pai carinhoso e protector que zela pelo futuro dos seus descendentes, se vê impotente perante a máquina devoradora que consome tudo quando este lhes oferece, um pai que assiste à desgraça dos seus próprios filhos, sem que nada lhe seja permitido fazer, senão esperar que a sensatez acabe por lhes moldar a vontade.

Por vezes as palavras são como o próprio ser humano, tem vontade própria. Não obstante, o que se pretende aqui concluir – como se de conclusão necessitasse – é que o futuro do Homem anda de mãos dadas com o futuro deste planeta a que chamamos Terra, desta terra que é a única casa a que poderemos confortavelmente chamar de lar. Ora, tanto se fala da crise económica na qual a actualidade escreve as linhas tortuosas do presente, que, facilmente nos esquecemos da Crise, sim, da Crise com maiúscula, a Mãe das crises, atrevemo-nos a dizer. A Crise que o planeta vêm passando nas últimas décadas, reflexo dos últimos séculos, reflexo da indústria e da modernidade que são a imagem de marca do ser humano dos novos tempos.

Sem grandes referências técnicas e para que se perceba, depois de todos os números, todas as estatísticas, todos os dados, no fim, tudo se resume a uma simples frase: “O planeta está muito doente!”. Os sintomas estão aí, em toda e qualquer parte, e não será preciso que sejamos médicos ou doutores de qualquer espécie para que o percebamos, não! Basta que olhemos, basta um humilde vislumbre sobre os contornos da Natureza e facilmente veremos – num qualquer canto, num qualquer lugar – os frutos do nosso pecado.

O que se pretende com toda esta corrente de palavras aleatórias pode definir-se desta forma: Colocar os pesos na balança da consciência, olhar de dentro para fora e perceber que a Natureza exterior está sangrada pelas chagas da nossa Vontade interna. E essa vontade – ainda o Tempo o permite – tanto pode ser a punho que desfere a golpe final, como, por outro lado, pode ser a mão caridosa que humildemente ata as cozeduras de uma ferida que ainda vai a tempo de ser curada.

Humildemente, olhemos para a terra que nos dá o pão, para o mundo que nos dá a casa, e passo a passo, pouco a pouco, mudemos os nossos hábitos, sempre com a consciência de que o planeta não nos pertence, que simplesmente fomos agraciados pela dádiva de o partilhar em harmonia com todas as suas maravilhas e todas as suas formas de vida, que como nós, povoam este planeta azul de esperança.



Nesta semana em que foram revelados mais alguns dados preocupantes relativos ao estado do planeta, não poderia deixar de dedicar umas palavras àquilo que é, nunca o esqueçamos, o mais importante de todas as coisas: O Planeta.

Que sem um ninho, nem a mais graciosa das aves pode sobreviver…



Vítor Pereira



Este artigo foi escrito segundo o antigo acordo ortográfico.