Vítor Pereira

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

III - A última estrela no céu *



Alguma vez sentiste aquele gosto salgado na boca quando tentas engolir as lágrimas, enquanto tentas evitar que elas te fujam pelos olhos? Como se o mar entrasse pela boca para afogar o silêncio nas palavras… O céu. O céu é um lugar tão distante. E ainda assim consegue brilhar para nós. É incrível a forma como o Universo foi desenhado – escolhe uma estrela, uma qualquer, seja ela qual for, daí de onde a olhas, seria impossível alcança-la, ainda que passasses todos os anos da tua vida a viajar na direcção dela, serias incapaz de a alcançar, mas não precisas, todas as noites ela está lá, se a procurares ela encontra-te, e, nesse momento brilha apenas por ti, para ti. Esse serei eu – quando todas as outras estrelas se apagarem ou não estiverem ao alcance, eu serei a última estrela no céu.

Finalmente compreendi. Dei comigo literalmente a dar uma gargalhada com os olhos em lágrimas! O que me deste ninguém nunca o poderá roubar, nem tu o conseguirias se quisesses. Compreendi que as memórias não são coisa do passado – as memórias são os desenhos que nos fazem sorrir em todas as coisas bonitas do mundo. E a ti, bem, a ti ninguém te poderá roubar de dentro do vento que me sopra no rosto nos finais de tarde de verão; nem da chuva que me beija os lábios no Inverno quando torno o olhar para o céu; tão pouco te podem roubar das folhas que pintam as ruas do Outono, das notas musicais que cintilam pelo meio da maresia que enche as noites à beira-mar, do luar que sorri para os sonhadores… não, não podem roubar do mundo que diante dos meus sentidos me pertence, é meu.

Serei a última estrela o céu, o meu brilho terá forma de abraço e o meu silêncio será teu nas noites em que os ruídos venham em forma de lágrima – cantarei para ti. Foi preciso entender que ficarás em mim para sempre para que te pudesse libertar. Agora vai, voa, sê mundo, sê sorriso, sê lágrima, voa. E nessas noites de vendaval, não tenhas medo porque o meu brilho será luz em forma de abraço e eu serei a tua estrela polar, quando todas as outras estrelas se apagarem ou não estiverem ao alcance, eu serei a última estrela no céu, e a saudade, a saudade será a luz onde sobrevivo.

P.S.: Não te esqueças de hoje.

Vítor Pereira









quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eufemismos

“Tenho saudades tuas” – é uma frase que gastámos constantemente, que dedicámos vezes sem conta àqueles dos quais a falta nos faz menores. Não te digo que a frase não faça sentido, tão pouco que não tenha o seu valor, mas não é isso que tenho de ti. “Sinto saudade de ti” – Saudade ao invés de Saudades, é um dos exemplos no qual o singular faz o plural ser menos. É dentro da saudade singular que se faz o sentido ímpar, nunca repetível, a saudade é o ADN da alma, o escuro onde vemos aquele rosto único desenhado no silêncio. Mas aqui o detalhe não se reserva à saudade singular, é no “Sinto” que está a diferença – Sinto saudade de ti. Como pode um corpo ter – e aqui vinquemos a palavra Ter – saudade de outro? A saudade não se tem, sente-se. Porque não é uma posse, é uma ausência – o todo que falta dentro do vazio e que lá não cabe, o vão que engole o todo sem o poder guardar. A saudade é tudo o que falta, tudo o que não se é.
“Sinto saudade de ti” – não, também não é isto que quero dizer-te. Porque a frase é disfarçada, é uma frase bonita que se esconde à frente do egoísmo, há quem chame a isso eufemismo. “Ti” – Ti é um eufemismo do “Eu”, ou, para acertarmos a lógica da frase, “Mim”, Ti é um eufemismo do Mim. Porque no fundo é isso que pretendo dizer-te, Sinto saudade de mim. Sinto sim, a falta de olhar o teu olhar, mas do que sinto saudade é de me ver dentro dele. Faz-me falta ver o teu rosto, mas sinto saudade de ver o meu, dentro – quem sabe – da saudade que tu tens de ti. Se sinto falta do teu abraço? Sinto sim, todos os dias, todos os momentos… mas do que sinto mesmo saudade, é do meu abraço a abraçar-me em ti.
E depois disto que falta? Falta a saudade da saudade da falta. Sim meu amor, sinto saudade da saudade que tenhas de ti – e que sofras de a querer matar em mim. No fundo é isto o Universo – a distância infinita entre dois corpos que viajam em direcções opostas, na esperança de que a alma seja um lugar redondo que se acabe no lugar onde começou, no princípio do encontro. Entre uma coisa e outra existem todas as coisas – aqui está uma boa definição do nada. Como se pode perder algo que nunca foi nosso? Assim mesmo, só o que nunca foi nosso se pode perder, porque, quando se acabarem os homens, entenderemos que o que é nosso não se pode nunca perder, porque o que é nosso nunca nos pertenceu. Faço sentido? Por certo que não, mas já o disse antes, vá alguém tentar explicar à alma que valor têm as palavras.
Possuímos apenas tudo o que nos falta.
Falta-me saudade de nós.


P.S.: Não te esqueças de hoje.

Vítor Pereira



terça-feira, 5 de agosto de 2014

1000 dias em Júpiter - Uma janela e um buraco negro


Crónica de um Astronauta no exílio 

Ainda espero encontrar-te quando olho para o mundo para lá da janela; ainda penso em ti quando dou comigo a pensar em mim; o vento não te traz lá fora, mas ainda te encontro quando olho para o mundo de dentro do peito que se abandonou em ti. Ainda vejo as estrelas no teu rosto, e o teu rosto nas estrelas. Transformo lágrimas em lágrimas – água em notas musicais – e as palavras dentro da folha de papel são gestos – são gritos que a terra guarda no silêncio da noite.

Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter… É para lá que vou. Abro a janela para dentro de um buraco negro e levo-me para onde não me posso ter. Mil dias em Júpiter e depois volto para nunca mais ficar… em mim. Quem deu nome às palavras não sabia que fazer com a terra por cultivar. Vou semear palavras em Júpiter e as flores vão ter o teu nome; Vou semear ventos e colher saudades.


Vou… Procura-me em Júpiter que na Terra não tenho onde ir.

Vítor Pereira