Vítor Pereira

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Docete omnes gentes


Para uma pessoa que como eu se defina, não diremos escritor, mas como um amante da escrita, da literatura e, acima de tudo, da Língua Portuguesa, convirá, ousaremos dizer, dedicar umas quantas palavras ao dilúvio de considerações que tem inundado este tão afamado acordo ortográfico.
Quem porventura pense que o que aqui se pretende é fazer uma listagem dos prós e contras do referido acordo, engana-se. Tão pouco nos importará tecer considerações relativas ao porquê dos porquês ou aos motivos desconexos que anuíram uma nova forma ao corpo das palavras, não esquecendo porém – e isto sim convém ressaltar – que podem as altas instâncias alterar a forma do corpo, mas cabe às pessoas preservar a sua Alma!

O que incessantemente me perturba – areias movediças de um legado que se deteriora com as marés do tempo – é o facto, talvez controverso mas dificilmente refutável, de que pouco importam os motivos que levaram a este novo acordo, pouco importa saber se o antigo acordo é mais louvável e honroso perante os egrégios livros da História da Pátria esquecida, ou, por outro lado, se este novo será um livro em branco, pronto a receber as páginas virtuosas do futuro…

Tudo isto se dilui na simples constatação que qualquer professor de Língua Portuguesa poderá tirar – e se estas palavras se mostrarem erróneas ou de qualquer modo falaciosas, que estes não hesitem em contrapor as minhas indagações – qualquer professor dizia-se, poderá constatar que cada vez mais, os alunos, os jovens, aqueles que terão na mão a caneta e a tinta permanente para escrever as linhas indecifráveis do porvir – perdoem-nos as constantes divagações – estes jovens, escrevem cada vez pior!

Não venham os críticos olhar estas palavras como uma crítica, ou pior, como um atestado de analfabetismo! Serão estas palavras, o espelho de uma preocupação, de quem lê nas palavras de Pessoa, os vislumbres de um Nevoeiro Patriótico, uma herança, um património que se vai perdendo – pertencendo a Língua a esse espólio pardacento.

No fim das contas – e por mais que o saudosismo me faça cair as preferências sobre o acordo que sempre usei – de pouco ou nada importa se a forma gráfica de uma palavra se alterou, quando, uma boa parte dos jovens – que não se entendam nestas linhas qualquer forma de definição absoluta e abrangente a todos – não possui as ferramentas suficientes para elaborar uma frase ou desenvolver uma ideia de forma correcta e conexa perante as linhas virgens do papel!

Um outro facto que me parece injustificável, e perdoem-me a franqueza, são as considerações que se encontram nas redes sociais, relativas a este já desgastado novo acordo ortográfico. Senão vejamos: Qual não foi o espanto deste que vos escreve, quando, navegando pelas marés disformes da teia informática, encontrei um daqueles grupos denominados “Anti-acordo ortográfico” que se encontra numa dessas bem-aventuradas redes sociais, um grupo com milhares de apoiantes que manifestam o seu desagrado, por vezes de forma quase odiosa para com o supracitado acordo – e não ousaremos nunca contestar ou criticar quem usa o protesto como forma de expressão. Porém, e no porém encontra-se a raiz de cada problema, ao dedicar um olhar atento aos comentários que alguns – demarque-se o Alguns – dos apoiantes deste grupo deixavam na respectiva página, deparei-me com o curioso – e desconcertante! – facto de que estes não escreviam nem em concordância  com o antigo acordo ortográfico, nem conforme o novo, escreviam e escrevem, simplesmente de forma errada, com erros ortográficos, e pior, erros de construção textual!

Reforcemos a ideia de que não pretende este texto ser uma crítica ou um atestado de óbito à Língua portuguesa, pretende simplesmente chamar a atenção para as novas “correntes literárias” nascidas das linguagens simplificadas dos telemóveis e das redes sociais, que mais que o conteúdo da mensagem, pretendem sim, ser rápidas e vazias, servindo para pouco mais que estabelecer ligações humanas sem sentido ou consistência, poupando, mais e mais, a mente ao desconforto do raciocino.
Fica então questão – talvez perpétua e irresoluta – Será de facto a ortografia que precisa de revisão, ou seremos nós a precisar de rever a forma como a utilizamos?

Não esqueçamos nunca, que terá o Ser Humano criado a linguagem escrita para gravar e perpetuar as linhas infindáveis do seu pensamento na castidade incólume dos desígnios do papel, tendo em vista, simplesmente, aquilo que nos difere dos outros animais – A expressão!
Não deixemos então que a Língua Portuguesa se deixe morrer pelos fantasmas do presente, porque seja ela “óptima” ou “ótima”, o importante é que não seja má…

“É hora!
Valete, Frates”

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Não Sou Poeta



Não sou poeta,
Sou um actor de poesia.
Não sou um corpo,
Nem um profeta.
Sou uma estrofe vazia.

Todavia pulso e insisto,
Grito os ferros da minha herança.
Porfio, mantenho-me em pé.
Sangro alma mas resisto,
Na minha débil esperança,
E total falta de fé.

Não a Deus, à sua imagem!
Que habita este globo covil,
Esse humano ser tão perfeito,
Que já brotou com o defeito,
De se exaltar de tanta coragem,
Mas de ser totalmente vil.




Poeta?! Não, não o ouso.
Sou um maldito da razão.
Sangro, mas jamais repouso,
Da minha velha opinião.

Inspiro, e o teatro permanece…

Vítor Pereira





 Finis coronat opus

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Alma Mater



 Num país onde a crise – como os antigos impérios conquistadores – vai ganhando terreno sobre as forças depostas das politicas do impotente mundo moderno, que como uma maré se deixa levar pelas areias movediças do presente, uma outra crise – paralela mas ignorada – vai-se entranhando, sem quase nunca se estranhar, vai-se vincando nas paredes de um povo outrora tatuado com as veias virtuosas de um passado, um legado enaltecido pelos valores de um império maior que qualquer outro – O Império Cultural.

Cultura! “Um grupo de valores partilhado por um determinado grupo de pessoas…”; “…todo o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Debruçando um olhar mais atento sobre a cultura das Artes, ainda o Homem não se sabia homem e já procurava exprimir-se através dos pergaminhos subjectivos da arte, abrindo o capítulo nunca encerrado – a perpétua busca pela indecifrável resposta àquela pergunta mais antiga que a própria humanidade – “Quem sou eu?”.

Terá sido através desta – a Arte – que o primeiro Homo encontrou a chave desconexa para as portas difusas do seu âmago, deixando assim, ao longo da ampulheta do tempo, uma impressão cultural daquilo que foi, é, e a até mesmo do que será o Ser Humano. Todo um código genético de expressão, orquestrado desde a batida dos primeiros tambores, das primeiras danças, as primeiras palavras cantadas sobre a poesia dos sentidos, num caminho tortuoso até à modernidade dos nossos livros, das músicas, teatros, a dança das imagens do cinema, a intemporalidade da fotografia e tudo quanto o Homem encontra para saciar a fome de expressão que ecoa nas paredes internas da existência… sempre, na eterna demanda pelo pedaço de divindade esquecido, por aquela senda flamejante guardada entre o pulsar daquilo a que, sem que outro nome se possa encontrar, chamamos simplesmente de Alma.

No que toca à Alma, podemos ousar defini-la como sendo a essência genuína que sobra do ser humano quando tudo o resto se retira. E isto – e aqui se encontra o ponto onde a ânsia das palavras nos quer levar – isto, é o espelho do verdadeiro sentido do Artista: O corpo liberto de uma Alma que procura incessantemente pelo cálice de expressão que lhe venha saciar a eterna sede da comunicação – A “Alma do Artista”!

Neste país, como dizíamos, onde a crise abarca tudo quanto existe, não poderiam as artes e a cultura deixar de sofrer com os desígnios da austeridade, porém, por mais injustos e sagazes que sejam os actos contra a Arte, não poderão nunca servir de desculpa para que esta, na sua mais profunda acepção, deixe de ser criada! Porque, insistimos, é nos momentos de mais intensa dificuldade que a Alma do Artista mais veemente se revela, e, serão nestes períodos manchados pelo suor do esforço, que os homens – o Povo – mais precisa da manifestação revoltosa da Arte e dos seus Artistas!

Mais que um grito de revolta contra a locomotiva de incessantes cortes que teima correr sobre os carris da tão ilustre crise, o que se pretende com este texto é deixar umas breves palavras – um grito de louvor – àqueles que, apesar das múltiplas dificuldades do presente, não se deixam repousar sobre os lençóis do desgosto e continuam a revelar os ensejos da sociedade através dos virtuosos caminhos da Arte. Porque é a eles – os Artistas – que o Povo recorre, e deve sempre recorrer, quando os caminhos sinuosos da vida se apresentam pardos e é preciso encontrar no mundo um escape e uma resposta – um conforto e uma simples mostra de humanidade…

Porque acima de tudo, o que primária e instintivamente se aspira enquanto se escrevem as páginas deste casulo que é existir, é encontrar na individualidade dos outros – na particularidade de cada ser humano – os traços comuns que permitam a cada um olhar-se ao espelho e reconhecer nele, a identidade cultural que nos define como verdadeiros Seres humanos.


 Não deixemos então, que a Cultura da Crise se torne na Crise da Cultura. Porque quando a fome invade o corpo, a Cultura – a Arte! – é a mãe que alimenta a vontade de Alma, é o pão que permite sobreviver aos contratempos de mais um dia… é a esperança no laranja do porvir – o amanhecer de dias mais iluminados…  

                                             (Publicado no Diário do Minho de 5 de Junho de 2012)

Vítor Pereira