Vítor Pereira

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O poema mais pobre do mundo



É uma tarefa difícil - entender que existe um abismo a separar um sorriso da felicidade. O mundo de hoje vive de pernas para o ar. Por ventura usaremos o sorriso para isso mesmo – para chamar a atenção à felicidade, para chamar por ela. Às vezes ponho-me a olhar as pessoas na rua, prendo a atenção nas que vão sozinhas. Hoje em dia já ninguém sorri sozinho, na melhor das hipóteses, uma pessoa sozinha é capaz de falsificar um sorriso enquanto espera que o flash da câmara do telemóvel dispare, não mais que isso. Mas às vezes ponho-me a olhar as pessoas na rua – procuro-lhes o sorriso nos olhos. 

Raramente encontro olhares a sorrir. Mas isto, por pior que seja, nem é o pior de tudo. Fazem-me imensa confusão aquelas pessoas que encontro a caminhar pela cidade de olhar preso na calçada – dedicam o alcance de um olhar à distância que separa um passo do outro, como se a vida não passasse disso. Mesmo nos dias mais tristes, percorro a cidade e procuro-a com o olhar, não com os passos, que se danem os passos, procura-a com o olhar. E às vezes dá vontade de focar o chão e abandonar o olhar nos passos que levam a lugar nenhum, mas para quê fazê-lo? A tristeza é um lugar-comum – é como aqueles vendedores da banha da cobra – não precisa de reserva, está sempre à disposição com tudo aquilo que não nos faz falta, é irrelevante procurá-la, facilmente ela nos encontra sem que a precisemos de chamar.

Tudo isto para dizer que aqui há uns dias, enquanto caminhava pela cidade sem olhar para os passos que eram meus, encontrei uma pessoa a sorrir com os olhos, uma, apenas uma, mas foi quanto me bastou para que pudesse eu sorrir também. O mais curioso é que esse sorriso que encontrei nas vistas de um estranho vinha iluminado de lágrimas. Sim, lágrimas. Não sei quem era, não o conhecia, mas posso afirmar, com toda a certeza, que aquilo que escorria de dentro dos olhos daquele desconhecido eram sorrisos molhados. Porquê? Porque as lágrimas também têm alma, aliás, arriscar-me-ia a dizer que as lágrimas são a matéria corpórea da alma. Mas isto pouco importa, tão pouco importam as razões que levaram aquele estranho a chorar um sorriso, essas pertencem-lhe apenas a ele. Para mim, roubei tudo aquilo que uma lágrima é capaz de partilhar e sorri com as minhas, apenas por saber que ainda existem sorrisos de verdade no mundo.

Uns metros à frente, já o estranho tinha sido engolido pela esquina que o levou, encontrei um outro desconhecido a salgar um sorriso húmido. Disse olá para dentro do reflexo que saía de dentro do vidro da montra da loja de antiguidades, e segui o meu caminho enquanto pensava o quão curioso é o mundo – sorrisos que escondem lágrimas; lágrimas que revelam sorrisos.

O céu tinha parado de chover.

P.S.: Não te esqueças de hoje.

















Vítor Pereira

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

III - A última estrela no céu *



Alguma vez sentiste aquele gosto salgado na boca quando tentas engolir as lágrimas, enquanto tentas evitar que elas te fujam pelos olhos? Como se o mar entrasse pela boca para afogar o silêncio nas palavras… O céu. O céu é um lugar tão distante. E ainda assim consegue brilhar para nós. É incrível a forma como o Universo foi desenhado – escolhe uma estrela, uma qualquer, seja ela qual for, daí de onde a olhas, seria impossível alcança-la, ainda que passasses todos os anos da tua vida a viajar na direcção dela, serias incapaz de a alcançar, mas não precisas, todas as noites ela está lá, se a procurares ela encontra-te, e, nesse momento brilha apenas por ti, para ti. Esse serei eu – quando todas as outras estrelas se apagarem ou não estiverem ao alcance, eu serei a última estrela no céu.

Finalmente compreendi. Dei comigo literalmente a dar uma gargalhada com os olhos em lágrimas! O que me deste ninguém nunca o poderá roubar, nem tu o conseguirias se quisesses. Compreendi que as memórias não são coisa do passado – as memórias são os desenhos que nos fazem sorrir em todas as coisas bonitas do mundo. E a ti, bem, a ti ninguém te poderá roubar de dentro do vento que me sopra no rosto nos finais de tarde de verão; nem da chuva que me beija os lábios no Inverno quando torno o olhar para o céu; tão pouco te podem roubar das folhas que pintam as ruas do Outono, das notas musicais que cintilam pelo meio da maresia que enche as noites à beira-mar, do luar que sorri para os sonhadores… não, não podem roubar do mundo que diante dos meus sentidos me pertence, é meu.

Serei a última estrela o céu, o meu brilho terá forma de abraço e o meu silêncio será teu nas noites em que os ruídos venham em forma de lágrima – cantarei para ti. Foi preciso entender que ficarás em mim para sempre para que te pudesse libertar. Agora vai, voa, sê mundo, sê sorriso, sê lágrima, voa. E nessas noites de vendaval, não tenhas medo porque o meu brilho será luz em forma de abraço e eu serei a tua estrela polar, quando todas as outras estrelas se apagarem ou não estiverem ao alcance, eu serei a última estrela no céu, e a saudade, a saudade será a luz onde sobrevivo.

P.S.: Não te esqueças de hoje.

Vítor Pereira









quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eufemismos

“Tenho saudades tuas” – é uma frase que gastámos constantemente, que dedicámos vezes sem conta àqueles dos quais a falta nos faz menores. Não te digo que a frase não faça sentido, tão pouco que não tenha o seu valor, mas não é isso que tenho de ti. “Sinto saudade de ti” – Saudade ao invés de Saudades, é um dos exemplos no qual o singular faz o plural ser menos. É dentro da saudade singular que se faz o sentido ímpar, nunca repetível, a saudade é o ADN da alma, o escuro onde vemos aquele rosto único desenhado no silêncio. Mas aqui o detalhe não se reserva à saudade singular, é no “Sinto” que está a diferença – Sinto saudade de ti. Como pode um corpo ter – e aqui vinquemos a palavra Ter – saudade de outro? A saudade não se tem, sente-se. Porque não é uma posse, é uma ausência – o todo que falta dentro do vazio e que lá não cabe, o vão que engole o todo sem o poder guardar. A saudade é tudo o que falta, tudo o que não se é.
“Sinto saudade de ti” – não, também não é isto que quero dizer-te. Porque a frase é disfarçada, é uma frase bonita que se esconde à frente do egoísmo, há quem chame a isso eufemismo. “Ti” – Ti é um eufemismo do “Eu”, ou, para acertarmos a lógica da frase, “Mim”, Ti é um eufemismo do Mim. Porque no fundo é isso que pretendo dizer-te, Sinto saudade de mim. Sinto sim, a falta de olhar o teu olhar, mas do que sinto saudade é de me ver dentro dele. Faz-me falta ver o teu rosto, mas sinto saudade de ver o meu, dentro – quem sabe – da saudade que tu tens de ti. Se sinto falta do teu abraço? Sinto sim, todos os dias, todos os momentos… mas do que sinto mesmo saudade, é do meu abraço a abraçar-me em ti.
E depois disto que falta? Falta a saudade da saudade da falta. Sim meu amor, sinto saudade da saudade que tenhas de ti – e que sofras de a querer matar em mim. No fundo é isto o Universo – a distância infinita entre dois corpos que viajam em direcções opostas, na esperança de que a alma seja um lugar redondo que se acabe no lugar onde começou, no princípio do encontro. Entre uma coisa e outra existem todas as coisas – aqui está uma boa definição do nada. Como se pode perder algo que nunca foi nosso? Assim mesmo, só o que nunca foi nosso se pode perder, porque, quando se acabarem os homens, entenderemos que o que é nosso não se pode nunca perder, porque o que é nosso nunca nos pertenceu. Faço sentido? Por certo que não, mas já o disse antes, vá alguém tentar explicar à alma que valor têm as palavras.
Possuímos apenas tudo o que nos falta.
Falta-me saudade de nós.


P.S.: Não te esqueças de hoje.

Vítor Pereira



terça-feira, 5 de agosto de 2014

1000 dias em Júpiter - Uma janela e um buraco negro


Crónica de um Astronauta no exílio 

Ainda espero encontrar-te quando olho para o mundo para lá da janela; ainda penso em ti quando dou comigo a pensar em mim; o vento não te traz lá fora, mas ainda te encontro quando olho para o mundo de dentro do peito que se abandonou em ti. Ainda vejo as estrelas no teu rosto, e o teu rosto nas estrelas. Transformo lágrimas em lágrimas – água em notas musicais – e as palavras dentro da folha de papel são gestos – são gritos que a terra guarda no silêncio da noite.

Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter… É para lá que vou. Abro a janela para dentro de um buraco negro e levo-me para onde não me posso ter. Mil dias em Júpiter e depois volto para nunca mais ficar… em mim. Quem deu nome às palavras não sabia que fazer com a terra por cultivar. Vou semear palavras em Júpiter e as flores vão ter o teu nome; Vou semear ventos e colher saudades.


Vou… Procura-me em Júpiter que na Terra não tenho onde ir.

Vítor Pereira

sábado, 28 de junho de 2014

O Sindicato dos Sonhos


Dei comigo preso dentro de um sonho a preencher um formulário qualquer – um formulário que era, bem vistas as coisas, o atestado de vida – “Morada:……………………………………………..” aparecia no ponto três do formulário. Nos espaços anteriores – nome e idade – conseguia vislumbrar apenas duas manchas de tinta disformes à minha visão  - é como quem mente ao mundo com as respostas que julga verdadeiras, mas sem ser capaz, o mentiroso, de ver verdade alguma naquilo que ele mesmo escreveu. Mas não é essa a história, a história é sobre um sonho preso dentro da pergunta três de um formulário sem razão, “Morada:……………………………………………..” Como se encontra o código postal de lugar nenhum? E o número, serve o zero para identificar o rés-do-chão da solidão? Cheguei a pensar em tentar disfarçar a resposta com coordenadas – por certo ninguém se daria ao trabalho de verificar as coordenadas de uma morada de um homem sem nome – mas nos sonhos não somos capazes de ignorar o básico das coisas sem importância.
São assim os sonhos, capazes de nos fazer questionar a insignificancia do mundo por causa de uma morada que no fundo podia ser qualquer uma – tivesse eu no sonho escrito que morava na casa branca e assim a sonhá-lo o sonharia verdade. Mas não, morada nenhuma.


Ia começar a escrever quando acordei com o carteiro a tocar à campaínha…
Dei comigo a abrir uma carta com o meu nome e a pensar que lugar será esse onde dormem os sonhos...

Vítor Pereira

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Diamantes e Ferrugem



Apercebo-me que todos os conceitos artísticos são bipolares. Nada disto é uma descoberta nova. Mas pensá-lo de forma racional trás à mente a ideia de que – sendo todos os conceitos artísticos um reflexo da alma de quem os cria, bem como da de quem os interpreta – todas as almas são bipolares. Bem esta ideia em si também não acrescenta nada de novo. O conceito que me rouba hoje o sono é de que para lá da alma ou do coração ou dos sentidos ou o que quer que chamemos às emoções andarem em constante rodopio, o que me começo a aperceber é que cada sentimento, na sua singularidade é bipolar. Acho que estou a tentar dizer que em cada tristeza temos dois sentimentos: a tristeza que lhe dá o nome e a alegria que se esconde por trás, o sorriso escondido na lágrima, a lágrima guardada dentro do sorriso e por aí em diante.
Claro que quando estamos tristes nos é extremamente difícil vislumbrar o sorriso dentro do coração que pulsa ao compasso da lágrima. Mas por certo já nos aconteceu, num daqueles momentos de enorme alegria, olharmos para ela, nesse preciso momento, já com a melancolia da saudade – como se o viver um momento de felicidade fosse só inteiro com o toque amargo de sabermos que não se irá repetir, e é assim, numa tela a preto e branco colorida pela sépia cromática do presente, fazemos dele passado, para que o passámos recordar, uma vez mais, com esta mesma saudade contente que logo ali nos beija a pele. Como dissemos ainda há pouco, é claro que nos é mais penoso olhar para a fotografia de um instante triste e acreditar que lá exista alegria…
Tudo isto nos leva à questão da Felicidade inserida nos conceitos do tempo. Dos três pressupostos temporais de que nos usamos para gerir as nossas vidas, o único no qual não vivemos verdadeiramente, é o presente. Dividimos o tempo a fazer contas ao passado e planos para o futuro. Quanto ao presente, dispomo-nos, na maioria dos casos, a vivê-lo com a tristeza de não ser tudo o que queremos. E é aqui que mora toda a tragédia humana! Somos incapazes de ler o presente. Quantas vezes precisaste do hoje para saber que afinal ontem eras feliz? Podíamos agora divagar dentro de mais umas centenas de palavras a tentar desbloquear esta questão, mas não me cabe a mim fazê-lo.


Quantas vezes precisaste do Amanhã para saber que afinal Hoje eras feliz? 

Vítor Pereira

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Entre o Limbo e as Estrelas

Mais uma noite. Cada dia é um novo tormento. E a vida, a vida são estas quatro paredes vazias e esta página em branco. Tempo e paciência – desfaço os segundos entre o fumo do cigarro que se acabou e o próximo que planeio fumar, são formas de gastar a mente com pensamentos menos profundos para poder fugir aos outros mais desassossegados. Que fazer ao coração que bate à espera dos segundos que não chegam? Deixá-lo bater. Acho que o Einstein abordou magistralmente a questão da relatividade do tempo no que confere à parte física do universo. E a alma? Alguém se terá já lembrado de estudar a relatividade do passar do tempo na alma? Talvez os poetas já o tenham feito, “num segundo do tamanho de uma eternidade” são coisas que se costumam encontrar nos livros – encontram-se mais verdades nos livros de ficção do que nos livros de ciência.
É precisamente isso. Uma eternidade dentro de cada segundo. E entre ela, apenas a espera. Limbo. Como se faz para passar à frente no tempo? Ou então pará-lo de vez? O mais curioso do limbo é que este te obriga a assistir ao filme da tua vida, vezes e vezes sem conta. As leis da física também ensinam que a própria existência do tempo, não só a sua percepção, é relativa, dizem que todos os momentos já se encontram gravados numa linha definida no momento da criação. Vá alguém explicar isso à alma.
Ponho-me a pensar na importância do ser humano. Olhámos para as estrelas e vemos poesia dentro do seu brilho. Mas depois logo vimos dizer que a poesia somos nós que a criámos no vislumbre de cada estrela para depois a fazer-mos em nós. Seremos nós a criar a poesia nas estrelas, ou são elas que nos fazem poetas? Imagino uma estrela a olhar cá para baixo e a dizer “Aquele ali, entre aquelas quatro paredes, vou amaldiçoá-lo, vou fazer dele poeta!” E eu, alegre de tão pouco, ponho-me a olhar para elas, a criar linhas de palavras para lhes dar beleza, como se fosse isso um dom, como se estrela alguma precisasse de mim para brilhar. Mas que posso eu fazer? É isto que sei. Vou deixar de o fazer? Como?

(Fui lá fora espreitar. Que bonito estava o céu. As lágrimas também têm luz)

A alma é um Universo maior.

Vítor Pereira

domingo, 8 de junho de 2014

"Porquê?"

Deparo-me por vezes, senão todas as vezes, com um desejo súbito de escrever, sem que eu saiba o porquê de o precisar de fazer. Como se as palavras, ainda por nascer, quisessem, necessitassem, por vontade própria, alheias à minha racionalidade, ganhar forma no papel. Assim, preto no branco. Chega a ser confuso. Faz-me querer pensar que não escrevo para colocar os sentidos no papel, mas sim para que seja o papel a colocar os sentidos em mim. Não, não é o caso de falsificar os sentimentos no papel para os poder falsificar em mim – isso fazem os poetas que amam a palavra mais que a vida – é sim uma tradução – a forma que a alma e o coração encontram para alcançar a mente com a intenção de a acalmar com o desassossego das sensações.
Nos últimos meses vivi uma poesia mais triste. Não que tenha sido menos sentida ou menos vivida, apenas mais triste. A tristeza acaba quase sempre por parecer ganhar à felicidade precisamente pelo erro da tradução. Como? A questão fundamental da tristeza é que levanta sempre mais questões que a felicidade. Talvez esta explicação seja também ela um erro. Não é que, numa perspectiva literal, a tristeza levante mais questões que a felicidade, tão pouco me parece que se dê o caso de que as respostas à tristeza sejam mais intangíveis que as da felicidade – porque, bem vistas as coisas, nenhuma pergunta tem uma resposta válida. Como assim? Tenho em mim que existem dois tipos de pergunta: aquela que colocámos sabendo já a resposta; e aquela que pomos, esperando não encontrar resposta. E no fundo, estas duas perguntas são precisamente a mesma! “Porquê?”
“Porquê?” é a pergunta fundamental, é todas as perguntas numa só; todas as respostas em nada. Inválida. Que quero eu dizer quando falo da invalidez de todos os porquês? Porque é precisamente na validação dos porquês que se encontra o erro primordial do ser humano – erro este que acaba por ser a raiz das suas tristezas e o que leva a formulação cíclica da questão. Portanto o porquê é o Alfa e o Ómega da tragédia humana. É necessário perceber que o ponto de interrogação em si, é o pilar basilar de toda a evolução – não teríamos sido capazes de estender a nossa inteligência, de superar as nossas próprias barreiras existenciais se não colocássemos perguntas. Isto é a minha crença. O único problema é o “Porquê?”. Porque se a pergunta é porquê, a resposta a todas elas é: Porque há catorze mil milhões de anos o universo, num golpe magistral, decidiu criar-se. A questão do porquê é que nos leva a pensar para trás, “Porque é que ontem aquilo aconteceu e agora eu fico assim triste e abandonado?... Porque é que passei anos a viver uma vida daquela maneira se me ia trazer a esta solidão que hoje toma conta de mim?” Blá blá blá.
E se invertêssemos a questão e o paradoxo temporal? Se em vez de um “Porquê?” colocássemos um “Para quê?” e olhássemos não para o passado mas para o futuro? Para que é que o universo foi criado há catorze milhões de anos? Para que pudéssemos fazer parte dele amanhã, no futuro, no segundo que virá depois deste que vou agora terminar. “Daqui a um segundo serei uma parte, um todo, uma fracção completa do Universo, irei então sorrir-lhe, sorrir-me.” Não, reformulemos a frase: “Daqui a um segundo Sou uma parte, um todo, uma fracção completa do Universo, sorrio-lhe, sorrio-me.”

- Para quê que estou triste agora?

- Para que no próximo segundo possas dar valor à felicidade que te vai procurar.

Vítor Pereira


quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Última Lágrima



            A última lágrima não é a que se chora por uma última vez, uma última vez. A derradeira, a lágrima final, é aquela que fica por chorar – que se guarda dentro do peito cansado de ser triste. Então porque lhe chamo de última? Porque é a que será para sempre. A que ficará sempre por chorar, que estará presente ao acordar, durante os dias chuvosos de Inverno e os longos dias de verão; a que corre as estações do luar; a que está presente no sorriso ocasional e dentro das outras tristezas triviais.
            A última lágrima é a que te obriga a ficar vivo quando a vida não te quer, e quando retribuis a vida não a querendo de volta. A última lágrima é uma apólice de seguro conservada no sal do espírito onde outrora foste a ilusão do que agora se apaga. A última lágrima é abismo que une o corpo à alma quando a alma se mudou já para outro lugar aonde não pertences.
            Em suma, a última lágrima é o cofre onde guardas tudo o que podias ter sido, é a vida que teria feito a morte feliz, quando viesse. É o adeus impossível, o momento irrepetivel, o silêncio desdito, a palavra desfeita para fora do verbo. A última lágrima é o que agarras quando abandonaste tudo o resto, quando tudo o resto te abandonou. Valessem de algo os sinónimos e poderia bem chamar-lhe o mundo, casa sem tecto, aperto fora do abraço.

            A última lágrima é a despedida de ficares em ti, sempre. Quem sabe venha o dia, o momento não sonhado, em que a possas por fim abandonar, e descansar de ti. 

Vítor Pereira

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Olá



A questão fundamental de uma despedida, a dor maior, não está no despedires-te de quem vai embora, não está no dizeres adeus a quem não volta mais, está sim no adeus que forçosamente tens de dizer à parte de ti que te abandona para sempre. Que fazer numa despedida, que fazer quando o pedaço de ti que te deixa é maior que o que sobra em ti? Nada. Apenas deixá-lo ir, aceitar que afinal de contas o que vai não te pertence. Tudo o que és pertence a alguma parte do mundo, tudo o que és faz-se no espelho de outros… Por isso nos custa tanto a solidão, não por estarmos sozinhos de gente, mas por estarmos abandonados de nós mesmos.

Mas a questão é, será possível viver? Haverá vida depois da morte? Não. Sim. Não, porque não podes voltar a ti, não existe regresso. E sim, porque até na maior catástrofe sobra alguma semente que permite o recomeço. Sabes, no fundo sabes que não existe a possibilidade de seres quem eras. Num cantinho do peito, bem lá no fundo, por mais que o negues, sabes que queres regressar a ti, mas não podes. E é assim, dentro da contrariedade que te arde dentro das feridas nunca cicatrizadas que aceitas que, ainda que não haja vida na felicidade, poderá existir alguma felicidade na vida, a felicidade possível. Esta, de todas as lições, é a mais difícil, por isso a escreves, por isso a repetes todos os dias, para combater a certeza de que preferes a tristeza profunda do que foi embora à felicidade do que te sobra. 

Chega um tempo em que compreendes que não precisas de ser feliz para viver, não precisas de ser feliz para ter motivos para viver. Precisas apenas de alguma vida que se encarregue de ti, que te regue a solidão com o vislumbre de um curto sorriso, que de tempos a tempos te beije a pele com o tacto, e, acima de tudo, que te queime as antigas tristezas com tristezas novas. Porque um dia, um dia a vida acaba – o sangue cessa, o oxigénio nega-te e o que quer que fique no mundo pertence-te apenas na medida do que deixaste nele. O que fica no mundo mede-se dentro do descontentamento alegre das lágrimas que semeaste, e vais-te, o que havia sobrado de ti pode finalmente adormecer e partir… partir ao encontro daquele outro “eu” que há tanto tempo te havia abandonado. Por fim reencontras-te fora do corpo que deixou de te pertencer.

Vítor Pereira

Um Livro Inventado Hoje

quarta-feira, 12 de março de 2014

Crónica de um recluso das Estações

O Inverno de Março vem trazendo o Sol da Primavera que está para chegar. Quase dá vontade de viver. Quase. O tempo perde-se. Perde-se dentro do não o saber mais – perde-se a noção dos dias, das horas, dos minutos… Esta frase que escrevi, terei demorado um minuto a pensá-la, ou tê-la-ei pensado para sempre? O tempo perde-se. Perde-se a idade também. E a vida, ou o que sobra dela, conta-se dentro do brilho que ocasionalmente o céu nos permite assistir – seja uma fatia de luar, ou o véu de uma estrela que, por um momento, parece brilhar para mim, por um breve segundo – ou quem sabe uma eternidade – quase me pertence. E só assim posso descansar por momentos, abandono a vida para dentro de uma luz que não me pertence, e, por entre as grades da cela onde o corpo envelhece, deixo a alma respirar um pouco, quase sorrir, quase um sorriso.

Noite outra vez. Felizmente noite, infelizmente noite. Tudo cabe dentro dela – minha advogada, psicóloga, juíza, carrasca… A culpa é o privilégio dos sonhadores; o luar é o sorriso para onde deitámos a Saudade. Além disto, existe apenas o corpo. Em dias de chuva, naqueles em que conseguimos abandonar a cela do tal corpo, quase é possível vermos a alma, se olharmos bem para dentro das lágrimas, a alma é como um véu que se desenha entre o espaço que se cria entre o vento e a dor. 

Porque nos pesa tanto o corpo? Talvez por não sermos capazes de elevar os sentidos, e as cascatas de solidão nascem para fora das mãos que suportam a cabeça cansada. A culpa é o privilégio dos sonhadores; o amor é o movimento que vem dar sentido à perda; e vice-versa.

Arrasto o corpo pela cela escura, que o é mesmo que dizer que arrasto a cela pelo corpo escuro. Numa parede, com o pauzinho de giz, faço mais um traço na saudade – é a única coisa que continuo a tomar nota, não os dias, não os meses, apenas saudade. É o mesmo que dizer que desenho traços em cima de traços, porque o espaço não cabe em mim, e a saudade multiplica-se para dentro dela. Que te falta? Solidão? Lágrimas? Sofreguidão? Tenho de tudo para partilhar… O nada é o melhor presente, é o tudo que tenho para oferecer. 

Agora vou-me. Para onde? Não sei. Para dentro do sonho talvez, para fora da vida, pouco importa. Vou para a chuva para ser sozinho. Procurar uma alma que me procure, uma que não seja minha, mas que me queira pertencer dentro da liberdade de uma memória renovada pela Primavera que demora a chegar.

A culpa é o privilégio dos sonhadores; o tempo é a sentença.

Vítor Pereira



segunda-feira, 10 de março de 2014

# Nem Sei

Bem... Vou escrever duas palavras, qualquer par de palavras serve. Vou escrevê-las só para poder dizer o que fica dito no espaço silencioso que as separa:

Nem sei.

Um "nem sei" é inteiramente capaz de dizer – com clareza, com uma exactidão recta, perfeita – tudo aquilo que quero dizer. E o olho para ti, não directamente para ti, porque não estás aqui; mas olho para ti, para dentro da saudade e digo-me, digo-te "Nem sei". 

Porque te digo tal coisa? Porque sei, e sei que talvez não saibas, mas sei que tens de saber que sei, que tudo o que sei cabe na imensidão que separa o "Nem" do "Sei", na distância entre um som e o outro, no centésimo que vive dentro estrada que percorre as duas palavras, digo-te tudo o que a volatilidade de todas as palavras não pode dizer.

E nisto já escrevi… o quê... umas cento e cinquenta palavras?

Porque raios o faço então, se tudo o que quero dizer-te cabe no espaço que mora entre duas palavras? Bem talvez o faça por reflexo, ou simplesmente, porque é só isto que sei… Mas a resposta melhor talvez more precisamente nesse tal espaço que voa entre cada par de palavras – matemática rudimentar portanto: quantas mais palavras escrever, mais espaços entre elas terei.

Não, não o faço por precisar de muitos espaços para te dizer tudo o que te quero dizer, não! Repito: na brecha que divide o “nem” do “sei” está tudo o que te quero dizer, o que te digo em todas as outras brechas é precisamente o mesmo. Portanto, escrevo simplesmente para dentro da esperança de que, por entre todos estes espaços de silêncio que te deixo, por mais que te percas, por mais que hesites ou duvides, sejas capaz de encontrar uma, apenas uma das tantas brechas que te deixo, e aí, encontres tudo o que te quero dizer em todas as coisas que te digo no meio de todas as palavras inúteis que escrevo.

Nem sei.  
P.S.: Fui ao espelho olhar-me por um momento. 
Que bem que me assenta a saudade…

Vítor Pereira