Dou
comigo a escrever este livro, esta história cheia de ficções verdadeiras, dou
comigo a sujar as páginas com as palavras, não como quem pensa uma história
fechado num quarto, mas sim, como quem a sente lá fora nas ruas, entre os
murmúrios do vento, os sorrisos da chuva, os queixumes do pôr-do-sol. E vejo
lágrimas e alegrias, vejo contentamentos tristes, vejo olhares, memórias, futuros,
corpos que se tocam, almas que se chamam na distância, vejo tristezas coloridas
e alegrias a preto e branco, vejo palavras, vejo ainda mais silêncios, tento
pintá-los a todos nesta tela cromática que é existir. Pinto-os a todos, e deixo
que me pintem, que me tragam a humanidade que tanto me escasseia.
Dou
comigo a escrever este livro não como quem o pensa mas como quem o sente, e
apercebo-me, sem saber porquê, que se aproxima a hora de lhe escrever um final.
Um final que ainda não tenho, um final pelo qual tenho que esperar que me
encontre, que se escreva em mim, para que o possa transcrever depois. Não
agonio nessa espera, aguardo-o já com uma saudade calma, mas sinto, lá no fundo,
sei que se aproxima… Calmamente, espero que me escreva.
Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio

