Que nome devemos dar ao lugar onde se acaba o corpo e a ausência começa? Limbo..? Até os homens mais descrentes sentem a necessidade de uma alma. Exista ou não, o problema da alma é que é sempre tarde demais. A alma é sempre tarde de mais. Quantas ausências são precisas para que entendamos que cada alma pertence fora do corpo que lhe foi atribuído? Cada alma pertence fora do corpo que lhe foi entregue ao nascer. Paz – paz são todos os raros momentos em que a alma vem visitar o corpo. Por norma é um outro corpo que a traz a nós. Quando a alma nos visita, sentimo-nos fora de nós, talvez por isso mesmo, por sermos estranhos ao estado inteiro.
A solidão é uma linha recta que caminhámos por montanhas dentro de nós. Limbo. O amor é uma curva apertada que se esbarra no peito sem travões – tão fugaz que dura para sempre. A maior parte dos Homens deseja um amor que dure para sempre sem se aperceber do risco de o Para Sempre ser um amor sozinho. Carvão rubro.
Carta para a minha alma:
Se me estiveres a ler, lembra-te das notas pretas do piano – chamam-se acidentes e fazem sons tão bonitos tanto quanto o fazem as notas brancas. Preto e branco pode bem ser uma fotografia, ou um filme antigo, mas preto e branco também é música. E isto que quer dizer? Fazes-me falta. Não te peço que voltes, não espero que voltes. Mas, se por ventura do acaso voltares, traz o piano que me levaste e mata a música que me deixaste e, por um segundo, deixa-me sair de mim. Mas se vieres, por favor, vem sozinha, para que não tenha outra vez, de vos ver partir às duas – a ti e a quem te devolveu a mim – e ficar eu, de novo às voltas dentro de uma linha recta, por montanhas dentro de mim.
Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento
Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento
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