Deparo-me
por vezes, senão todas as vezes, com um desejo súbito de escrever, sem que eu
saiba o porquê de o precisar de fazer. Como se as palavras, ainda por nascer,
quisessem, necessitassem, por vontade própria, alheias à minha racionalidade, ganhar
forma no papel. Assim, preto no branco. Chega a ser confuso. Faz-me querer
pensar que não escrevo para colocar os sentidos no papel, mas sim para que seja
o papel a colocar os sentidos em mim. Não, não é o caso de falsificar os
sentimentos no papel para os poder falsificar em mim – isso fazem os poetas que
amam a palavra mais que a vida – é sim uma tradução – a forma que a alma e o
coração encontram para alcançar a mente com a intenção de a acalmar com o
desassossego das sensações.
Nos
últimos meses vivi uma poesia mais triste. Não que tenha sido menos sentida ou
menos vivida, apenas mais triste. A tristeza acaba quase sempre por parecer
ganhar à felicidade precisamente pelo erro da tradução. Como? A questão
fundamental da tristeza é que levanta sempre mais questões que a felicidade. Talvez
esta explicação seja também ela um erro. Não é que, numa perspectiva literal, a
tristeza levante mais questões que a felicidade, tão pouco me parece que se dê
o caso de que as respostas à tristeza sejam mais intangíveis que as da
felicidade – porque, bem vistas as coisas, nenhuma pergunta tem uma resposta
válida. Como assim? Tenho em mim que existem dois tipos de pergunta: aquela que
colocámos sabendo já a resposta; e aquela que pomos, esperando não encontrar
resposta. E no fundo, estas duas perguntas são precisamente a mesma! “Porquê?”
“Porquê?”
é a pergunta fundamental, é todas as perguntas numa só; todas as respostas em
nada. Inválida. Que quero eu dizer quando falo da invalidez de todos os
porquês? Porque é precisamente na validação dos porquês que se encontra o erro
primordial do ser humano – erro este que acaba por ser a raiz das suas
tristezas e o que leva a formulação cíclica da questão. Portanto o porquê é o
Alfa e o Ómega da tragédia humana. É necessário perceber que o ponto de interrogação em si, é o pilar basilar de toda a evolução – não teríamos sido
capazes de estender a nossa inteligência, de superar as nossas próprias
barreiras existenciais se não colocássemos perguntas. Isto é a minha crença. O
único problema é o “Porquê?”. Porque se a pergunta é porquê, a resposta a todas
elas é: Porque há catorze mil milhões de anos o universo, num golpe magistral,
decidiu criar-se. A questão do porquê é que nos leva a pensar para trás, “Porque
é que ontem aquilo aconteceu e agora eu fico assim triste e abandonado?...
Porque é que passei anos a viver uma vida daquela maneira se me ia trazer a
esta solidão que hoje toma conta de mim?” Blá blá blá.
E
se invertêssemos a questão e o paradoxo temporal? Se em vez de um “Porquê?”
colocássemos um “Para quê?” e olhássemos não para o passado mas para o futuro?
Para que é que o universo foi criado há catorze milhões de anos? Para que pudéssemos fazer parte dele amanhã, no futuro, no segundo que virá depois deste
que vou agora terminar. “Daqui a um segundo serei uma parte, um todo, uma
fracção completa do Universo, irei então sorrir-lhe, sorrir-me.” Não,
reformulemos a frase: “Daqui a um segundo Sou uma parte, um todo, uma fracção
completa do Universo, sorrio-lhe, sorrio-me.”
-
Para quê que estou triste agora?
-
Para que no próximo segundo possas dar valor à felicidade que te vai procurar.
Vítor Pereira