Vítor Pereira

sábado, 28 de junho de 2014

O Sindicato dos Sonhos


Dei comigo preso dentro de um sonho a preencher um formulário qualquer – um formulário que era, bem vistas as coisas, o atestado de vida – “Morada:……………………………………………..” aparecia no ponto três do formulário. Nos espaços anteriores – nome e idade – conseguia vislumbrar apenas duas manchas de tinta disformes à minha visão  - é como quem mente ao mundo com as respostas que julga verdadeiras, mas sem ser capaz, o mentiroso, de ver verdade alguma naquilo que ele mesmo escreveu. Mas não é essa a história, a história é sobre um sonho preso dentro da pergunta três de um formulário sem razão, “Morada:……………………………………………..” Como se encontra o código postal de lugar nenhum? E o número, serve o zero para identificar o rés-do-chão da solidão? Cheguei a pensar em tentar disfarçar a resposta com coordenadas – por certo ninguém se daria ao trabalho de verificar as coordenadas de uma morada de um homem sem nome – mas nos sonhos não somos capazes de ignorar o básico das coisas sem importância.
São assim os sonhos, capazes de nos fazer questionar a insignificancia do mundo por causa de uma morada que no fundo podia ser qualquer uma – tivesse eu no sonho escrito que morava na casa branca e assim a sonhá-lo o sonharia verdade. Mas não, morada nenhuma.


Ia começar a escrever quando acordei com o carteiro a tocar à campaínha…
Dei comigo a abrir uma carta com o meu nome e a pensar que lugar será esse onde dormem os sonhos...

Vítor Pereira

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Diamantes e Ferrugem



Apercebo-me que todos os conceitos artísticos são bipolares. Nada disto é uma descoberta nova. Mas pensá-lo de forma racional trás à mente a ideia de que – sendo todos os conceitos artísticos um reflexo da alma de quem os cria, bem como da de quem os interpreta – todas as almas são bipolares. Bem esta ideia em si também não acrescenta nada de novo. O conceito que me rouba hoje o sono é de que para lá da alma ou do coração ou dos sentidos ou o que quer que chamemos às emoções andarem em constante rodopio, o que me começo a aperceber é que cada sentimento, na sua singularidade é bipolar. Acho que estou a tentar dizer que em cada tristeza temos dois sentimentos: a tristeza que lhe dá o nome e a alegria que se esconde por trás, o sorriso escondido na lágrima, a lágrima guardada dentro do sorriso e por aí em diante.
Claro que quando estamos tristes nos é extremamente difícil vislumbrar o sorriso dentro do coração que pulsa ao compasso da lágrima. Mas por certo já nos aconteceu, num daqueles momentos de enorme alegria, olharmos para ela, nesse preciso momento, já com a melancolia da saudade – como se o viver um momento de felicidade fosse só inteiro com o toque amargo de sabermos que não se irá repetir, e é assim, numa tela a preto e branco colorida pela sépia cromática do presente, fazemos dele passado, para que o passámos recordar, uma vez mais, com esta mesma saudade contente que logo ali nos beija a pele. Como dissemos ainda há pouco, é claro que nos é mais penoso olhar para a fotografia de um instante triste e acreditar que lá exista alegria…
Tudo isto nos leva à questão da Felicidade inserida nos conceitos do tempo. Dos três pressupostos temporais de que nos usamos para gerir as nossas vidas, o único no qual não vivemos verdadeiramente, é o presente. Dividimos o tempo a fazer contas ao passado e planos para o futuro. Quanto ao presente, dispomo-nos, na maioria dos casos, a vivê-lo com a tristeza de não ser tudo o que queremos. E é aqui que mora toda a tragédia humana! Somos incapazes de ler o presente. Quantas vezes precisaste do hoje para saber que afinal ontem eras feliz? Podíamos agora divagar dentro de mais umas centenas de palavras a tentar desbloquear esta questão, mas não me cabe a mim fazê-lo.


Quantas vezes precisaste do Amanhã para saber que afinal Hoje eras feliz? 

Vítor Pereira

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Entre o Limbo e as Estrelas

Mais uma noite. Cada dia é um novo tormento. E a vida, a vida são estas quatro paredes vazias e esta página em branco. Tempo e paciência – desfaço os segundos entre o fumo do cigarro que se acabou e o próximo que planeio fumar, são formas de gastar a mente com pensamentos menos profundos para poder fugir aos outros mais desassossegados. Que fazer ao coração que bate à espera dos segundos que não chegam? Deixá-lo bater. Acho que o Einstein abordou magistralmente a questão da relatividade do tempo no que confere à parte física do universo. E a alma? Alguém se terá já lembrado de estudar a relatividade do passar do tempo na alma? Talvez os poetas já o tenham feito, “num segundo do tamanho de uma eternidade” são coisas que se costumam encontrar nos livros – encontram-se mais verdades nos livros de ficção do que nos livros de ciência.
É precisamente isso. Uma eternidade dentro de cada segundo. E entre ela, apenas a espera. Limbo. Como se faz para passar à frente no tempo? Ou então pará-lo de vez? O mais curioso do limbo é que este te obriga a assistir ao filme da tua vida, vezes e vezes sem conta. As leis da física também ensinam que a própria existência do tempo, não só a sua percepção, é relativa, dizem que todos os momentos já se encontram gravados numa linha definida no momento da criação. Vá alguém explicar isso à alma.
Ponho-me a pensar na importância do ser humano. Olhámos para as estrelas e vemos poesia dentro do seu brilho. Mas depois logo vimos dizer que a poesia somos nós que a criámos no vislumbre de cada estrela para depois a fazer-mos em nós. Seremos nós a criar a poesia nas estrelas, ou são elas que nos fazem poetas? Imagino uma estrela a olhar cá para baixo e a dizer “Aquele ali, entre aquelas quatro paredes, vou amaldiçoá-lo, vou fazer dele poeta!” E eu, alegre de tão pouco, ponho-me a olhar para elas, a criar linhas de palavras para lhes dar beleza, como se fosse isso um dom, como se estrela alguma precisasse de mim para brilhar. Mas que posso eu fazer? É isto que sei. Vou deixar de o fazer? Como?

(Fui lá fora espreitar. Que bonito estava o céu. As lágrimas também têm luz)

A alma é um Universo maior.

Vítor Pereira

domingo, 8 de junho de 2014

"Porquê?"

Deparo-me por vezes, senão todas as vezes, com um desejo súbito de escrever, sem que eu saiba o porquê de o precisar de fazer. Como se as palavras, ainda por nascer, quisessem, necessitassem, por vontade própria, alheias à minha racionalidade, ganhar forma no papel. Assim, preto no branco. Chega a ser confuso. Faz-me querer pensar que não escrevo para colocar os sentidos no papel, mas sim para que seja o papel a colocar os sentidos em mim. Não, não é o caso de falsificar os sentimentos no papel para os poder falsificar em mim – isso fazem os poetas que amam a palavra mais que a vida – é sim uma tradução – a forma que a alma e o coração encontram para alcançar a mente com a intenção de a acalmar com o desassossego das sensações.
Nos últimos meses vivi uma poesia mais triste. Não que tenha sido menos sentida ou menos vivida, apenas mais triste. A tristeza acaba quase sempre por parecer ganhar à felicidade precisamente pelo erro da tradução. Como? A questão fundamental da tristeza é que levanta sempre mais questões que a felicidade. Talvez esta explicação seja também ela um erro. Não é que, numa perspectiva literal, a tristeza levante mais questões que a felicidade, tão pouco me parece que se dê o caso de que as respostas à tristeza sejam mais intangíveis que as da felicidade – porque, bem vistas as coisas, nenhuma pergunta tem uma resposta válida. Como assim? Tenho em mim que existem dois tipos de pergunta: aquela que colocámos sabendo já a resposta; e aquela que pomos, esperando não encontrar resposta. E no fundo, estas duas perguntas são precisamente a mesma! “Porquê?”
“Porquê?” é a pergunta fundamental, é todas as perguntas numa só; todas as respostas em nada. Inválida. Que quero eu dizer quando falo da invalidez de todos os porquês? Porque é precisamente na validação dos porquês que se encontra o erro primordial do ser humano – erro este que acaba por ser a raiz das suas tristezas e o que leva a formulação cíclica da questão. Portanto o porquê é o Alfa e o Ómega da tragédia humana. É necessário perceber que o ponto de interrogação em si, é o pilar basilar de toda a evolução – não teríamos sido capazes de estender a nossa inteligência, de superar as nossas próprias barreiras existenciais se não colocássemos perguntas. Isto é a minha crença. O único problema é o “Porquê?”. Porque se a pergunta é porquê, a resposta a todas elas é: Porque há catorze mil milhões de anos o universo, num golpe magistral, decidiu criar-se. A questão do porquê é que nos leva a pensar para trás, “Porque é que ontem aquilo aconteceu e agora eu fico assim triste e abandonado?... Porque é que passei anos a viver uma vida daquela maneira se me ia trazer a esta solidão que hoje toma conta de mim?” Blá blá blá.
E se invertêssemos a questão e o paradoxo temporal? Se em vez de um “Porquê?” colocássemos um “Para quê?” e olhássemos não para o passado mas para o futuro? Para que é que o universo foi criado há catorze milhões de anos? Para que pudéssemos fazer parte dele amanhã, no futuro, no segundo que virá depois deste que vou agora terminar. “Daqui a um segundo serei uma parte, um todo, uma fracção completa do Universo, irei então sorrir-lhe, sorrir-me.” Não, reformulemos a frase: “Daqui a um segundo Sou uma parte, um todo, uma fracção completa do Universo, sorrio-lhe, sorrio-me.”

- Para quê que estou triste agora?

- Para que no próximo segundo possas dar valor à felicidade que te vai procurar.

Vítor Pereira