Vítor Pereira

sábado, 31 de janeiro de 2015

Nameless

A vida nunca é o que esperámos. Então porque esperámos nós? Porque a vida é isso mesmo – uma espera. Não espera de aguardar – se bem que também o fazemos – mas uma espera de expectativa. Alguém se terá perguntado porque gostámos tanto de histórias, de ficções, de filmes que podiam ser o nosso – somos todos fazedores de histórias, nem todos possuem a capacidade de escrever uma história ou de delinear um conto ou uma música que conte uma coisa qualquer, mas somos todos fazedores de histórias, tecelões de sonhos e criadores de casulos de seda. Mas será real aquela história do “segue os teus sonhos”? Talvez o seja, ou talvez o deva ser. Mas talvez – e como sempre, posso apenas garantir-me um talvez – muitos dos sonhos que sonhámos não sejam sonhados para serem reais mas sim para isso mesmo – para serem sonhados, fugir da vida para poder, por breves instantes, não ter de a viver.

O único sentido que procuro nas palavras que escrevo para dentro do papel é exportar o sentido que nunca me faço cá dentro – naquilo a que alguns chamam de alma e outros tratam por vazio. Esta semana escrevi outra história em forma de música. É engraçado, se um dia tivesse de explicar a alguém como raios faço eu uma música, não poderia responder outra coisa senão algo como “Não faço música nenhuma, cada música me desfaz um pouco”. Mas normalmente o que acontece é que me deparo perante uma qualquer harmonia às mãos da guitarra, ligo o gravador do telemóvel e abandono umas palavras ao acaso em cima de uns acordes, e por “acaso” entenda-se literalmente isso – uma capacidade de desligar a lógica linguística por não mais que dois minutos. Essa é a parte fácil – se é que é justo chamar fácil ao acaso – depois são horas, por vezes dias, a tentar decifrar a lógica da história que ali se escreveu sem mim – alterar um adjectivo aqui, acrescentar um nome ali, mudar uma lágrima de verso, colocar uma rima no final de uma frase, numa palavra – decompor.

O melhor vem no fim. Não tenho presunção dentro das minhas músicas – abro o peito para dizer que sou músico, que componho música, mas não presumo qualidade em nenhuma delas, se uma música é boa ou má, não me cabe a mim dizê-lo, aliás, é quase um erro dizer que uma música me pertence, quando em boa verdade, e como já disse, é a música que me desfaz. Mas como disse, o melhor vem no fim – naquela primeira vez em que escuto a música na forma a que chamo de completa – não lhe chamo terminada, porque fim, em boa verdade, nenhuma música tem. Mas quando a escuto por completo pela primeira vez, por uns três ou quatro minutos, posso esquecer-me da vida, de mim. É assim que tantas vezes, dentro de uma música que geme triste, dou por mim a sorrir com uma lágrima nos lábios, ou a chorar com um sorriso no olhar, tanto faz.

Quando era miúdo sonhava ser músico. Não tinha noção do preço.

P.S.: “Nameless” foi o nome com esta última música se baptizou. Cliché ou não, pouco me importa, não foi eu quem lhe deu nome. Não obstante, depois de a escutar pela primeira vez, fui à carteira verificar o meu bilhete de identidade. O nome ainda lá estava:

Vítor Pereira



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