#28
As
rotinas são o fio condutor da monotonia que, ainda que aborrecidamente
repetitivas, nos conduzem na incerteza de cada dia que escorre sobre o pêndulo
de cada momento. Dessas parcas rotinas, a mais fiel, ser-me-á indubitavelmente
a insónia que sempre me encontra e me abarca por entre a seda do anoitecer. Costumamos
assumir que nós, seres humanos, somos donos e senhores da ironia, pois bem que,
bem mais que nós, que na ignorância nos achamos donos de tudo quanto possuímos,
a insónia é a rainha da ironia. Debatemo-nos por lentos minutos, que duram
tanto como quaisquer outros, mas que sobre a batuta da insónia se arrastam numa
maré de enfado, debatemo-nos dizíamos, por lentos minutos, arrastadas horas com
a insónia de querer dormir e não encontrar a janela do sono – muitas vezes por
estarmos demasiado ocupados a sonhar – e basta que, nos sentemos sobre a cama
que triste se lamenta por não nos servir o devido propósito, para que ao
sentarmo-nos sobre a página aberta de um texto que ainda não começou, nos venha
logo esse sono que a ausência teimava matar. E então, forçamo-nos a largar as
palavras, a preencher o texto que o âmago trazia afinal já escrito, para por
fim, nos rendermos a esse tão aclamado sono. E deitamo-nos uma vez mais,
cobertos com os lençóis que escutam e guardam o nosso silêncio, para
encontrarmos uma outra vez, debaixo das pedras do descontentamento, a insónia
que a alma voltou a chamar. E em calma, agoniamos.
Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio
Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio
