Vítor Pereira

terça-feira, 30 de abril de 2013

Rotinas


#28


As rotinas são o fio condutor da monotonia que, ainda que aborrecidamente repetitivas, nos conduzem na incerteza de cada dia que escorre sobre o pêndulo de cada momento. Dessas parcas rotinas, a mais fiel, ser-me-á indubitavelmente a insónia que sempre me encontra e me abarca por entre a seda do anoitecer. Costumamos assumir que nós, seres humanos, somos donos e senhores da ironia, pois bem que, bem mais que nós, que na ignorância nos achamos donos de tudo quanto possuímos, a insónia é a rainha da ironia. Debatemo-nos por lentos minutos, que duram tanto como quaisquer outros, mas que sobre a batuta da insónia se arrastam numa maré de enfado, debatemo-nos dizíamos, por lentos minutos, arrastadas horas com a insónia de querer dormir e não encontrar a janela do sono – muitas vezes por estarmos demasiado ocupados a sonhar – e basta que, nos sentemos sobre a cama que triste se lamenta por não nos servir o devido propósito, para que ao sentarmo-nos sobre a página aberta de um texto que ainda não começou, nos venha logo esse sono que a ausência teimava matar. E então, forçamo-nos a largar as palavras, a preencher o texto que o âmago trazia afinal já escrito, para por fim, nos rendermos a esse tão aclamado sono. E deitamo-nos uma vez mais, cobertos com os lençóis que escutam e guardam o nosso silêncio, para encontrarmos uma outra vez, debaixo das pedras do descontentamento, a insónia que a alma voltou a chamar. E em calma, agoniamos.

Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio