Vítor Pereira

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Pétala-Espinho

Faltam sete dias para o verão. O som do Inverno que sobrevive lá fora, atravessa os telhados lavados de chuva. Alguém se esqueceu do tempo. Nenhuma metáfora resiste ao tempo, e dele, fica apenas o que fica. Bem, hoje venho lembrar-te de pele que esqueceste aqui. A pele é impermeável à água, mas não à chuva. Existe algo na chuva que morre quando deixa de o ser, o mesmo se passa com a pele que lembra de ti o toque molhado da Primavera que se foi contigo. A terra molhada que não me secou de ti. 

A pele. A pele também se veste – veste-se todos os dias – e não temos, nós que a vestimos, a noção de que a pele é das roupas mais difíceis de usar. Quantas são as vezes em que a pele não nos assenta bem, não nos quer pertencer. Quantas são as vezes em que nos sentimos mal dentro da pele que nos pertence? Alguém se esqueceu no tempo. Diz-se que ao olhar as estrelas, estamos literalmente a olhar para o passado, mas, quantas são as vezes em que dou por mim a olhar para o céu estelar e para todos os futuros que ficaram por ser presente. Espaço e tempo, parados à volta das memórias que desconstruímos enquanto, alheios, apagámos todos os planos que o passado fez nada.

Os sonhos e o amor são feitos do mesmo orvalho opaco com que se pára o tempo. Dentro de um sonho, só nos apercebemos que algo está mal, que algo não faz sentido, depois de nos deitarmos para fora dele, acordar. Enquanto sonhámos, qualquer sonho é realidade impermeável aos véus do agora. O amor é a mesma coisa, embora seja tragicamente pior, porque dele, não nos é permitido acordar, apenas morrer uma morte vigilante em todos os espinhos de um cigarro que foi cancro antes de ser fumo. A morte de um amor, ou de um sonho, ou de uma coisa qualquer, é uma maquilhagem – fotografia cara e coroa de tudo o que foi – toda a história se torna mais bela e invariavelmente mais triste. Pétala-Espinho. 

Pudesse eu, olhar para as estrelas, e ver-me dentro de passado que me cabia em ti e eu céu seria mais escuro por ver-me luzir com mais brilho. O que sobra do tempo parado em nada e o espaço vazio de si é o que somos. Somos isso. 

O passado não volta atrás.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

domingo, 7 de junho de 2015

Comprimido-Prosa

Perdi noção do tanto tempo que passou, do tanto tempo em que procurei substituir-te, algo, alguém que pudesse substituir-me de ti. O mesmo tempo que levei a entender que não existe forma de preencher o espaço que o vazio ocupa – o vazio é insubstituível, porque, no final das contas, se colocarmos algo em cima do vazio, estamos apenas a preenchê-lo com matéria, mas ele, o vazio, continua lá – a matéria envelhece, ou simplesmente cansámo-nos dela, livrámo-nos dela, e o vazio volta a ocupar o lugar que nunca deixou. 
  
Não te aceitaria de volta se te pudesse ressuscitar. Da mesma forma que não posso matar o que sobrou de ti por dentro que sobrou de mim. Uma fotografia é como uma música parada no tempo, não existe forma de mudar nenhum dos três – no entanto vemo-los mudar por dentro dos nossos olhos e quase nunca nos apercebemos que fomos nós quem mudou e que até a mais real das imagens é moldada sobre a dança da chuva que seca o peito. E eu olho para todas as imagens com que me iludias com felicidade e recordo-me das recordações que tinha de ti antes de te tatuar a preto e branco nos lençóis onde a minha carne se deita para repousar de ti. Pó de flor. 

O maior problema de todas as coisas que não se podem tocar, é o vivermos abraçados a elas, e, no processo, não nos sobrar mão que possa agarrar o mundo capaz de cultivar a terra que sobrevive em nós. Comprimido-Prosa. Não obstante, qualquer coisa. Procuro sempre um “mas” como quem mergulha ao céu à procura de ar, como desculpa para existir, ser. Guardo de ti tudo quanto não posso deitar fora, como um cidadão do mundo que sobrevive a si através dos outros – deito as alegrias à chuva e não guardo nenhuma para mim. E sou feliz assim.

Escrevo prosa como quem procura a melhor frase para rimar o final de um poema e as escreve a todas, sem encontrar nenhuma.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Espelho Mau



Será possível ao menos deitarmos fogo ao gelo que fizeram de nós? No dicionário nunca se encontra a equivalência da Saudade – a Saudade é um nome próprio que se apropria do nome de quem nos desapropriou de nós. Faz sentido? Pouco importa. Andámos sempre à volta do mesmo – coração círculo. Fogo – hoje quero falar-te do fogo como algo palpável. No meu dicionário, palpável é todo o sentido visível ao escuro do toque. E eu falo nas coisas como quem parece saber muito delas, quando no fundo falo nas coisas para tentar saber algo de mim. Espelho mau. 

Se formos capazes de abrir os ouvidos para o silêncio e enfrentar o toque palpável do violino, o que sobra é o encontro do arco com as cordas – fricção, vibração – e é como deitar fogo às recordações que guardámos com tanto carinho que não temos outra vontade senão matá-las com a mesma morte que estas nos dão a comer à vida – e ouvimo-las estalar; escuto-as estalar como troncos secos a dar luz ao Inverno de mim. Uma boa parte das estações são vividas no passado – tudo é memória de uma memória. A literatura é feita de comparações – usámos o “como” até à exaustão: “Eras vida – como morte que espera por se merecer” – e eu, que me gasto em comparações triviais, não sou capaz de te comparar a ti. Não tens comparação contigo, sim, não és comparável a ti. Foi aí que te perdi.

A melhor forma de se encontrar alguma coisa, sempre foi o deixar de procurar por ela. E eu quero tanto fazer as pazes com o Inverno que me vejo forçado a despedir-me do Adeus que todos os dias procuro dizer-te pela última vez, e, deixar-te ficar – aceitar-te todos os dias quando os pensamentos se deitam na cama e o dicionário da noite te traz na sombra da Saudade que se baptizou de ti. Aceitar-te todas as horas e deixar que te apagues, no teu tempo, no teu ritmo… e esperar que, no dia em que te vás de vez, sobre algum fogo… e um violino virgem de ti.

Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento