sábado, 28 de dezembro de 2013
# Amanhã
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
# Lágrima :)
Amar acaba por ser uma predisposição, uma aceitação da dor. Não a dor que mata, mas a dar que alimenta a alma. Engane-se quem se acredita ser capaz de ser feliz sem lágrimas! Desengana-se quem tem fé num corpo livre de sofreguidão - só a inexistência da matéria impalpável da alma pode livrar o homem da dor, mas esse vácuo, livra-o também do verbo viver. Tomemos a Saudade: sofro no momento em que te encontro, porque sei, com todo o amor que a certeza me dá, que essa saudade que mato quando te vejo e te beijo, são duas saudade por nascer. Mas sofro com um sorriso, e depois, quando adormeces, tento parar o tempo como fotografia, atraso-o, nego-o. Mas acabo por partir, espero sempre um pouco mais: mais um vislumbre, mais um beijo no teu rosto que sonha, mais um toque, mais um murmúrio da tua respiração... Mas vou-me, abandono-te para que possa ficar em ti. E a lágrima, chorada ou guardada, fica em ti - no beijo em que te Amo - e em mim, no Amor que me leva... E choro, choro com um sorriso na pele salgada.
Lágrima. Querendo colocar um sinónimo em cima da Humanidade, com H maiúsculo, terá de ser, impreterivelmente, a palavra Lágrima. E, ainda assim, não deixará a lágrima de ser a síntese do Universo, a anáfora de cada conto, a partícula menor da carne, a porta para o que só se pode ver de olhos cerrados - inventem um dia um lágrimoscópio e talvez sejamos capazes de ver o corpo da alma; sim, já o inventaram, alguns o inventam a cada dia - quando fecham os olhos para descompreender a racionalidade do sal.
Parecemos estar a filosofar sobre coisa nenhuma, quando o que queremos dizer, quando o que quero dizer, a ti que moras na lágrima e no sorriso do meu peito, no norte e no sul da alma que no horizonte me criaste, a ti, digo: em cada lágrima reside o fragmento inteiro do que somos, do que cada um de nós é. No rés-do-chão de cada lágrima mora uma sombra de solidão, portanto digo-te, partilhemos o sal da lágrima singela, e a felicidade será o amor com o qual temperaremos o Universo de cada segundo. Assim, em duas lágrimas que se encontram no abraço de um beijo, se encontra o Amor que nos encontrou.
E agora a ti - a todo e qualquer um que porventura me leia - atreve-te! Procura a lágrima que te faça feliz; o paradoxo que te complete. Para cada mundo, existe um mundo por descobrir... Assim se faz o Universo - plural e único como o existir.
Vítor Pereira
Um livro inventado hoje
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quarta-feira, 6 de novembro de 2013
# Desperdido (B*)
Perdi-me pelo mundo inconsciente de ti. Perdi-me pelo mundo à tua procura, procurei-te sem te saber, procurei-me no Tu que não sabia existir. Mas procurei-te, desejei-te, sonhei-te, amei-te... muito antes de te acreditar, de me acreditar, de nos acreditar. Fui um ignorante sem bagagem pelo mundo, foi um passageiro de um sonho que ainda não via luz, a tua luz. Viajei com punhado de frases como alimento e a poesia como transporte, abandonei-me, recriei-me... Vivi à procura de um tesouro sem mapa, de uma ideia, um conceito, tão frágil, tão ténue que, se pensado em voz alta, se sonhado sob a forma do sono, se dissolvia na maresia da chuva do horizonte do amanhã - Amor.
Mas perdi-me. Amei-te muito antes de me encontrar em ti. Amei-te nas pequenas coisas: no sorriso de uma flor acordada pelo abraço do orvalho tépido da manhã; no cantar de uma pedra a beijar o marulho adoçado do mar; na canção do vento à saudade que te haveria de ter... Em todos os suspiros que suspirei por coisa nenhuma, amei-te sem saber.
Mas perdi-me... até ao dia em que me perdi no encontro do teu olhar beijado no meu. Ancorei na aurora da tua pele para nunca mais regressar a mim, para me saber real. Soube que existia no dia em que ganhaste forma no meu peito - gesto, mudez, pulsação... Sei perfeitamente quem não era, desconheço completamente quem sou, mas sei, claramente, que tudo o que sou me és, tudo o que és eu Amo, tudo o que Amo és... De resto, tomo todas as agendas do futuro, e escrevo o teu nome, em todas as páginas, dedico-te o tempo e abraço a aventura de uma vida a teu lado, com o Amor como único guião, com o abraço como único transporte, com o beijo como respiração...
Perdi-me no mundo à tua procura.
Perco-me em ti à procura do mundo.
Vítor Pereira
Um Livro Inventado Hoje
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domingo, 13 de outubro de 2013
# Despedida
- Deixo um pedacinho de mim a cada vez que me despeço de ti...
-...
- Deixo-me por inteiro a cada vez que parto para a Saudade de não te ter presa na liberdade do meu abraço... Abandono-me em ti e parto para te procurar. Parto para a espera que me devolvas a mim.
-...
- No fundo é isto. Digo-te adeus e coloco a vida em standby, até ao momento em que reencontro os teus lábios abertos no nosso olhar fechado e me revejo em ti.
- Alguma vez me dirás adeus?
- Dir-te-ei "Até ao meu próximo fôlego..."; "Até já, até amanhã..."
- E "Adeus"?
- Poderei dizer-te "Adeus..."
-...
- Mas nunca pela última vez... É só o que posso prometer, por cada "adeus" que te der, hei-de procurar-te até te voltar a encontrar a pele... Só a tua pele me permite respirar livremente, só o teu abraço é capaz de me sufocar.
Só o Amor pode Matar e dar Vida ao mesmo tempo. Só o Amor permite a ressurreição, Adeus após Adeus.
Vítor Pereira
Um Livro Inventado Hoje
terça-feira, 8 de outubro de 2013
# José Saramago
Saramago
Lembro-me como se fosse Amanhã! Não desta entrevista em particular, mas recordo perfeitamente o dia, estava numa visita de estudo, tinha eu naquela altura um daqueles radiozinhos pequeninos dos chineses, ia na camioneta a ouvir música na rádio quando um interlocutor dá a notícia: "Prémio Nobel da literatura entregue ao Português José Saramago..." e eu, com os meus 10 anos e total desconhecimento do Senhor de quem estavam a falar pensei, "Isto deve ser uma coisa importante..." e lá fui, esqueci o facto, vivi o dia da visita de estudo respirando por completo o oblívio de não saber (passando o pleonasmo) o quanto este senhor me haveria de ensinar, as noites que iria passar a ler os pensamentos e as histórias dele e a criar os meus, nunca parecidos, nunca iguais... É a magia da literatura, fazer-nos tantas vezes pensar algo que nada tem que ver com o que ali está escrito...
Continua a ser - digo eu - mais respeitado além fronteiras do que o será no seu País. Pouco importará. Ousaria eu dizer que a literatura se faz de pessoas e não de pátrias; e já o ousou dizer o mestre Pessoa, "A minha Pátria é a língua Portuguesa..." - também a será para mim, também a terá sido porventura para o mestre Saramago.
Não terá sido o mais perfeito dos homens, chego a perguntar-me, teria o mais perfeito dos homens alguma coisa que escrever? Talvez sim, talvez não. Foi um homem imperfeito, a escrever a homens imperfeitos... Talvez por isto eu o aprecie tanto.
A Saramago não diremos "Que descanse em paz", mas sim, "Que as suas palavras continuem a viver em desassossego!"
Amém!
Vítor Pereira
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Improviso à Saudade - Arpa Zirtaeb
Sei! Sei que te Amo quando te tenho e ter-te não me basta! Sei que te Amo quando te tenho e ainda assim te preciso com uma Saudade que a Saudade não mata! Sei! Sei que te Amo, quando a calma é uma urgência que sufoca com a respiração! Inspiro-te; Expiro-te; e apresso-me a inspirar-te de novo, só para não te deixar fugir. Sei! E não te prendo, porque só a liberdade te pode agarrar a mim, só pelo voo te posso roubar...
E fujo! Por vezes fujo-te, só para poder esbarrar-te em mim, encontrar-te no fio de um beijo rasgado antes do toque, nunca consumido no seu todo, nunca suficiente... Fujo de ti, como quem corre na direcção do medo!
Não quero saber de nada! Quero-te saber em tudo... Vou abandonar-te para dentro de mim... Não te quero ter, quero-te por empréstimo, por todos os dias – como um daqueles caloteiros (!) que pede emprestado e não devolve nunca – quero-te assim! Amo-te como um caloteiro desavergonhado!
E falo como se tivesse muito a dizer, quando no fundo, não tenho nada a dizer! Digo-te um improviso, Amo-te de improviso.
P.S. Queria só dizer que te Amo.
P.P.S. Era só isto. Dá-me um punhado de chuva e um sorriso, e eu faço-me... Faço-me-te!
Vítor Pereira
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
# A Toda a Humanidade
Tu!
Pergunta-te isto, não o respondas a ninguém senão a ti, pergunta-te somente: Se
soubesses que irias morrer amanhã, que coisas teriam importância hoje?
Morte!
Outra vez morte! Desde cedo que mandámos as crianças para a escola,
supostamente para as preparar para a vida. Aprendem de tudo, tudo digo-o eu,
excepto a única lição necessária, indispensável… Felicidade! Ninguém prepara as
crianças, ninguém lhes dá as ferramentas para serem felizes! Perguntam-lhes
“Que queres ser quando fores grande?” ou invés da pergunta, única, crucial,
“Que queres fazer antes de morrer? Que vais tu fazer para ser feliz?”. Não,
evitamos o assunto da morte, como se fosse tabu, quando é precisamente a morte,
a noção da morte, a perspectiva do fim, o derradeiro caminho para a Vida, para
a Felicidade! Devia ser esta a introdução à escolaridade! O professor entra na
sala, apresenta-se, apresentam-se as crianças umas às outras e o professor toma
a palavra, “Agora que se conhecem, lição número um: Morte! Daqui por umas
dezenas de anos todos vocês estarão mortos! Se tiverem sorte dar-vos-ão um
buraco na terra, umas quantas lágrimas em vossa memória, umas flores e pouco
mais… Agora ide! Ide para o intervalo e vivei! Brinquem, sujem-se, sorriam,
esfolem os joelhos, comam as sandes com as mãos sujas da terra, ide, e quando
voltarem, falaremos da Vida…”
Não!
Não é o que a escola ensina. Ensinam-nos desde cedo a fazer planos! Planos para
daqui a dez anos, para daqui a vinte anos, para daqui a quarenta anos quando
formos velhos! Trabalhem, trabalhem muito! Trabalhem doze, catorze horas por
dia, juntem dinheiro, comprem uma casa que seja só vossa, uma casa grande e
cheia de coisas! Comprem um bom carro para que os outros vejam o quanto vocês
trabalham e trabalhem muito, juntem muito dinheiro para quando forem velhinhos!
Pouco
importa a forma, pouco importam as palavras. A história é esta! “Matem-se a
preparar o futuro!” E assim o Homem se gasta, perde a vida a trabalhar para “daqui
a uns anos” poder aproveita-la, não hoje, não amanhã, “daqui a uns anos!” E os
anos passam, a vida vai-se gastando sem ser vivida, e de repente, antes que
tenhamos tido hipótese de a viver, acaba-se, assim, de um dia para o outro
acaba-se… “Amanhã, a ver se acabo aquela obra e no fim-de-semana levo a família
a dar um passeio…”, “Hoje trabalho até mais tarde, e amanhã faço um jantar
romântico com a minha mulher…” e sem aviso, a amanhã não vem, esgota-se, morre
e deixa todos os planos suspensos, des-vividos.
Planeava
agora escrever todo um parágrafo a dizer-vos, a quem me leia, a quem me queira
ler, a dizer-vos para viverem, a inspirar-vos a serem felizes, a usar frases
poéticas sobre a felicidade e o Amor. Mas não me cabe a mim fazê-lo! Não existe
poesia nas palavras, só a vida, vivida ao extremo, pode ser poética. Portanto,
Vivam! Mandem um palavrão ao ar se for necessário, “Que se foda, vou é viver!”
Vivam!
Tu! Pergunta-te isto, não o respondas a
ninguém senão a ti, pergunta-te somente: Se soubesses que irias morrer amanhã,
que coisas teriam importância hoje?
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domingo, 15 de setembro de 2013
# Canhões de Abraços e Beijos Assassinos
Existe no Amor, um sentido trágico que guerra alguma consegue alcançar. Se por um lado a guerra diz "Vou-te matar!", o Amor grita "Mata-me! Exijo que dês cabo de mim ou então de pouco me serve viver!" Enquanto que a guerra, ainda que raramente, se permite a uma trégua ocasional, não existe no Amor a possibilidade de pausas para negociação - porque Amar é uma Guerra ininterrupta que sempre parece estar por um fio, que a todo o momento parece querer explodir, dar cabo do mundo!
Guerra! É precisamente o que o Mundo precisa, é precisamente o que o Mundo urge, o que o Mundo gritaria se pudesse gritar! - "Guerra! Matam-se uns aos outros seus cabrões! Matem-se! Sufoquem-se com a força de um beijo! Estrangulem-se na violência de um abraço... Matem-se e deixem-me viver!"
Guerra! Só uma Guerra Mundial pode salvar o Homem! Só uma Guerra pode dar trégua ao Mundo.
Vítor Pereira
Volume II
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013
# Preservativos Nucleares
No momento em que encontras o Amor, perdes-te! E aqui o verbo não se refere ao “perder de Amor” na sua concepção poética, perdes-te! Perdes tudo! E o mais curioso é que te sentes feliz por perder! És o derrotado mais feliz do mundo! A própria liberdade – quantos homens não travaram guerras, mataram outros homens, sacrificaram membros, órgãos, e se ofereceram às mais variadas dores, em nome da liberdade, só para a perderem depois, à puta da liberdade, nos braços de uma mulher! Perdes a liberdade como um inocente que oferece o pescoço à guilhotina, só para te veres rolar sobre a tua cabeça, às voltas no pêndulo do Amor!
Olhas para a mulher que Amas, fazes cara de cão mal abandonado, e colocas as algemas sobre os teus pulsos, “Agora tranca-as! Já só falta algemares-me os pulsos, porque o resto já está enclausurado por ti, portanto, tem ao menos a decência de me algemar os pulsos e deita a chave para onde, nem eu nem tu, a possamos encontrar…” Depois, resta saber o que faz a tal mulher, se te algema à volta de um poste de iluminação de um beco sem luz, ou se te prende à volta do corpo dela, para que fiques enclausurado no calor do seu abraço! De uma maneira ou de outra, não tens como fugir, não tens como voltar atrás, estás preso, e tão pouco pensas em libertar-te!
“E agora que faço” perguntas-lhe tu.
“Cala-te e ama-me! Ama-me e cala-te!” diz ela… Mas tu não sabes, não podes ter a certeza se foi isto mesmo que ela te disse, porque isto é apenas o que queres ouvir enquanto estás preso num Amor sem espaço ou tempo que te possa dar idade. E assim vais andando, esperando que a voz que escutas se torne mais nítida, esperando lá bem no fundo do peito, que te declarem prisão perpétua!
Todo o homem abdica da liberdade em troca de um abraço perpétuo. Toda a mulher foge de um abraço em troca da liberdade que lhe permita procurá-lo. À parte disto, todos os humanos são reclusos do que desejam…
Vítor Pereira
Volume II
sábado, 27 de julho de 2013
Babel e a Linguagem Perdida
O
maior paradoxo da própria linguagem, encontra-se ironicamente no facto de que,
mesmo quando queremos criticar o valor das palavras, usamos essas mesmas ímpias
palavras para as denegrir, ousamos dizer, acabando por morrer do nosso próprio
veneno.
Ao
longo das páginas que lentamente se sucedem, temos vindo a tecer considerações
relativas ao papel genético que a linguagem desempenha no ADN humano. Isto dever-se-á sobretudo ao facto de encontrarmos na
linguagem e na sua volúvel arbitrariedade, a razão para os constantes
desentendimentos, para os confrontos, para o caminho de horror com que a
humanidade tem manchado as páginas áureas do planeta Terra, como que culpando
as palavras pelos pecados que nascem no pensamento de cada homem e que depois
se repercutem nos destinos do globo. Contudo, e em cada Contudo existe sempre
um porém, tal e qual como em cada alma existirá uma outra por descobrir,
existem ainda argumentos que não consideramos convenientemente.
Algures
no meio académico do estudo da linguagem existem teorias relativas à mesma, que
nos levam a considerar que, a certo ponto da história existiu uma língua
original, tal e qual como noutras áreas se considera da mesma forma o pecado. Os
argumentos que parecem corroborar a existência desta língua que terá sido
falada pelos primeiros homens e que depois de terá ramificado nas várias
línguas que escreveram e escrevem o conto da humanidade, são as semelhanças que
encontramos em palavras com igual significado, em diferentes línguas antigas. Tomando
o exemplo da palavra Irmão, que deriva da palavra do latim frãder, vemos que esta última tem enormes semelhanças com a mesma
palavra bhrãtãr que deriva do
sânscrito, tal como a palavra brothar
que advém do gótico. Se tais palavras, e como estas muitas outras, têm tais
semelhanças e um igual significado mental, sendo que cada uma destas
pertencente a uma respectiva língua falada por um povo que não tinham acesso às
outras línguas, não poderemos então considerar estas semelhanças meras
coincidências, e como tal, poderemos assumir que terá existido uma língua
original que posteriormente deu origem a estas. Tendo este factor em conta, e
olhando para o que nos diz o comparativista alemão August Schleicher, que cada
língua funciona com um organismo natural que nasce, cresce, desenvolve-se,
envelhece e finalmente morre, podemos por fim concluir que a língua, vai-se
corrompendo e degradando, perdendo o funcionando perfeito que tinha, sendo
então plausível conjecturar que é precisamente na língua primitiva que os
primeiros homens falavam, que se encontra o segredo da linguagem perfeita.
No
fim, todos estes afluentes de pensamento em que nos deixamos embrenhar para
explicar aquilo que o presente nos mostra e que a racionalidade não justifica,
servem para concluir que a linguagem, no seu estado mais unitário, ou seja, as
palavras são aquilo que fazemos delas, por este exacto motivo, quando nos
referimos à imperfeição da linguagem, queremos senão confessar que, sendo a
linguagem um reflexo de quem a usa, a imperfeição é o espelho de quem somos.
Não poderemos voltar àquele estado primitivo perfeito, se é que alguma vez ele
de facto existiu, mas poderemos sempre cerrar as palavras, mergulhar no
silêncio e ouvir o que dentro de cada um palpita, fazendo por encontrar na
fonte que jorra das nascentes virgens do âmago, o código fonético de uma
irmandade que urge em impor-se, para que assim, possamos olhar os olhos de cada
semelhante e ver nele o irmão que o passar do tempo parece ter apagado, dando
assim ao mundo a palavra que lhe confere, permitindo que todos os seres possam
por fim viver em harmonia naquilo a que mentalmente assumiríamos como um
verdadeiro planeta, uma verdadeira casa.
Não
esqueçamos nunca, uma gota de orvalho resplandecendo na pétala branca de um
novo nascer de dia, é e sempre foi uma simples gota de orvalho que marulha
entre as enormes belezas que enchem o caderno natural, simples dizemos, mas
absoluta, cada simples unidade, está intrinsecamente ligada com os veios de
todas as outras, cabe à Consciência de cada um, olhar essa simples gota de
orvalho e compreender o núcleo da sua importância, aceitando toda a sua beleza
e todo o seu esplendor, para que assim, cada simples gota de orvalho tenha o
seu lugar no mundo e para que as gotas lacrimejantes do presente revelem o seu
verdadeiro valor.
Olhámos
o mundo pela janela de um ecrã que se expande numa teia infindável de
diferentes histórias. Se pudéssemos ler todas as histórias do Livro de Tempo,
veríamos que ao ser humano corresponde somente uma ténue fatia. Quando o primeiro
Homo marcou as suas pegadas no caderno do solo natural, milhões de histórias
teriam já calcado essa mesma porção de terra, fazendo do homem, mais um entre
os seres da natureza. Não iremos afirmar que a natureza é mais importante que o
homem, não que não seja verdade, mas bem sabemos o quanto não gostamos de ser
inferiorizados em relação ao que quer que seja, porém, não poderemos concordar
que seja o homem, mais importante que a natureza. Tudo se resume a isto.
Vítor Pereira
O Coleccionador de Lágrimas
sábado, 29 de junho de 2013
# Do Mar à Saudade
http://www.youtube.com/watch?v=ge9Zsre7gjc
Não sei de ti; Não sei onde estás; Sei de ti unicamente em mim; Estás viva, mas não sei de ti; Sinto-te a falta numa Saudade que é Mar; Escuto-te, em marés avulsas e perfumes olvidados pelo presente do futuro incerto; Mas não sei de ti, onde estás? Onde estás para lá de mim? Estou contigo, sem saber de ti; Não preciso de saber de ti, para estar fora de mim, contigo; O pensamento é o estar longe de corpo que me prende na tua ausência; O pensamento é o corpo da alma que a todos os segundos te procura, tendo-te;
Toda a vida que se viveu em mim, foi uma preparação para ti; A chuva e o vento, as flores e o sol, o dia e a madrugada – todos eles, solidão; Até que cheguei a ti, até que chagaste a mim e me permitiste nascer no berço da não-solidão; Todos os poemas foram a síncrise de ainda não te saber possível, verdadeira; Todas as palavras foram a prosa do Amor não sentido; Toda a dor, a ficção de não ter motivos para sofrer; Até que chegaste; E as nuvens pardacentas desocultaram o Sol do Amor de seres real, verdadeira;
Encontrei-te e percebi o sentido da minha mão – a tua mão; És a metade que falta à minha mão; O abraço que completa a palavra; O beijo que o dicionário não compreende; Mas não sei de ti; Porque não sei se estou em ti – da forma completa como estás tu em mim; Por isso não sei de ti; Por isso estou em ti, na casa do Amor que te tenho; Mas não, não sei onde estou, porque não sei de ti.
sábado, 8 de junho de 2013
Salvação
... “A maioria dos homens não tem capacidade para fazer o que você fez” disse o Doutor, “O quê?”, “Aperceber-se dos erros. Aperceber-se de que caminhava por um caminho errado e ser capaz de o alterar”, “Não sei se terei alterado alguma coisa, continuo o miserável que sempre fui, simplesmente abandonei as fortunas, mas o mundo não se alterou por minha causa, por certo, o lugar que deixei vazio, já alguém o tomou”, “Por certo, mas o importante não é o caminho que deixou para trás e que alguém tomou por si, o importante é o caminho que alguém deixou e que você foi capaz de tomar para si”, “Como assim?” questionou o Homem, “Essa menina, abandonaram-na, e você tomou para si, por livre vontade, a tarefa de a devolver ao mundo, quem sabe mesmo de lhe dar um. Se cada um de nós salvasse um outro, salvar-nos-íamos uns aos outros e todos estariam salvos, mas isso nem é o mais relevante, por vezes tomamos as coisas por demasiado grandes e complexas, como se tivéssemos de salvar o mundo sozinhos, quando realmente basta que encontremos forma de nos salvar a nós mesmos, cada homem encontrar a sua salvação, o seu verdadeiro caminho, e talvez por si só, o mundo se salve também”, “E o Doutor, já encontrou a sua salvação?” esta era a verdadeira questão, o Homem fê-la, não na esperança de ver na resposta o caminho para a sua, mas com o desejo de saber que é possível, como que esperando um alento para o seu próprio alento, “Espero que um dia possa olhar para mim, e encontre a resposta sem que eu precise de lha dar” respondeu o Doutor.
As palavras cessaram, o rio retornou à sua corrente normal, voltando a abrir a pauta da natureza tocada ao compasso do coração, unindo-se a todos os outros sons, repetindo assim a ode número um, aquela que nenhum homem precisou de compor pois foi sobre a batuta serena desta orquestra que ele mesmo foi criado, o luar livrou-se da cortina nevoenta que lhe esbatia a visão, e vestiu-se também a rigor, para assistir, como em todas as noites, ao teatro da existência. Bem no alto do seu camarote branco, nesta noite em particular, dedicou a atenção a um dos infinitos actos que lá em baixo ocorriam, tantas são as tragédias, tantos os tormentos que preferiu hoje, debruçar tranquilamente o seu manto áureo sobre três almas que sobre os lençóis do Eufrates, se deitavam no conforto da terra para dormir, quem sabe para sonhar com ela.
Vítor Pereira
O Coleccionador de Lágrimas
sábado, 11 de maio de 2013
#&
Dou
comigo a escrever este livro, esta história cheia de ficções verdadeiras, dou
comigo a sujar as páginas com as palavras, não como quem pensa uma história
fechado num quarto, mas sim, como quem a sente lá fora nas ruas, entre os
murmúrios do vento, os sorrisos da chuva, os queixumes do pôr-do-sol. E vejo
lágrimas e alegrias, vejo contentamentos tristes, vejo olhares, memórias, futuros,
corpos que se tocam, almas que se chamam na distância, vejo tristezas coloridas
e alegrias a preto e branco, vejo palavras, vejo ainda mais silêncios, tento
pintá-los a todos nesta tela cromática que é existir. Pinto-os a todos, e deixo
que me pintem, que me tragam a humanidade que tanto me escasseia.
Dou
comigo a escrever este livro não como quem o pensa mas como quem o sente, e
apercebo-me, sem saber porquê, que se aproxima a hora de lhe escrever um final.
Um final que ainda não tenho, um final pelo qual tenho que esperar que me
encontre, que se escreva em mim, para que o possa transcrever depois. Não
agonio nessa espera, aguardo-o já com uma saudade calma, mas sinto, lá no fundo,
sei que se aproxima… Calmamente, espero que me escreva.
Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio

sábado, 4 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Rotinas
#28
As
rotinas são o fio condutor da monotonia que, ainda que aborrecidamente
repetitivas, nos conduzem na incerteza de cada dia que escorre sobre o pêndulo
de cada momento. Dessas parcas rotinas, a mais fiel, ser-me-á indubitavelmente
a insónia que sempre me encontra e me abarca por entre a seda do anoitecer. Costumamos
assumir que nós, seres humanos, somos donos e senhores da ironia, pois bem que,
bem mais que nós, que na ignorância nos achamos donos de tudo quanto possuímos,
a insónia é a rainha da ironia. Debatemo-nos por lentos minutos, que duram
tanto como quaisquer outros, mas que sobre a batuta da insónia se arrastam numa
maré de enfado, debatemo-nos dizíamos, por lentos minutos, arrastadas horas com
a insónia de querer dormir e não encontrar a janela do sono – muitas vezes por
estarmos demasiado ocupados a sonhar – e basta que, nos sentemos sobre a cama
que triste se lamenta por não nos servir o devido propósito, para que ao
sentarmo-nos sobre a página aberta de um texto que ainda não começou, nos venha
logo esse sono que a ausência teimava matar. E então, forçamo-nos a largar as
palavras, a preencher o texto que o âmago trazia afinal já escrito, para por
fim, nos rendermos a esse tão aclamado sono. E deitamo-nos uma vez mais,
cobertos com os lençóis que escutam e guardam o nosso silêncio, para
encontrarmos uma outra vez, debaixo das pedras do descontentamento, a insónia
que a alma voltou a chamar. E em calma, agoniamos.
Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio
Vítor Pereira
Crónicas do Silêncio
terça-feira, 19 de março de 2013
Excerto...
“…
‘e a bala poderia ter vindo morrer ao meu coração…’ disse-me assim, aquele
homem ferido, assim, como um poeta que pela primeira vez se apercebe da
realidade da vida e que pela primeira vez também, de olhar apaixonado e
desconcertado, usa as palavras na poesia de uma realidade outrora desconhecida.
Como se todas as palavras antes proferidas, todas as páginas da vida passada
tivessem sido isso mesmo, meras palavras, páginas baças de uma ficção agoniada
pela mentira de cada suspiro, e de repente, manchado sobre o rubro vivo do
sangue, apercebe-se de algo tão simples como a existência de um coração, um
coração que sangra e que pode morrer sobre o compasso de um infortúnio.
A
razão porque escrevo esta passagem aleatória neste diário que há tanto tempo
repousava na solidão fechada de que eu próprio tenho sido refém, deve-se ao
olhar, à forma filosófica das palavras, aos gestos deste homem que tanto me
recordam um homem que há muitos anos viveu dentro deste homem que agora sou eu,
aquele olhar profundo de quem continuamente se interroga sobre as razões da
própria razão e acima de tudo, aquela tão simples pergunta, que devora todo o
ser humano, mas que só alguns têm o discernimento de a enfrentar de olhar e
alma aberta, uma pergunta tão simples como “Quem Sou Eu?”. Agora dormem, ele e
aquela menina, como pai e filha, mesmo que ambos o neguem, mesmo que nenhum
deles o saiba, sobre este sol africano onde os primeiros pais terão dormido
lado a lado com os filhos indefesos, aqui se repete, pai e filha dormindo sobre
a sombra solitária de uma árvore que não é mais que isso, uma árvore solitária.
Do nada, volta-me o gosto pela escrita, as palavras, também para mim, parecem
voltar a fazer algum sentido, como se ao olhar um poema que não me pertence, me
viesse a vontade de o escrever pelas minhas próprias palavras, e, me voltasse
também aquela velha pergunta, mais velha que este trapo que agora sou, Quem Sou
Eu? Um velho errante que trata os que carecem de assistência? Um desgastado
espectador que escreve as poesias de um mundo que o ignora? Quem sou eu? E
vendo-os dormir, sinto levemente a tranquilidade de não o saber. Faz-se tarde,
prepararei o jantar, que estas pobres almas não devem comer vai para muitas
horas.”
Vítor Pereira - "O Coleccionador de Lágrimas"
segunda-feira, 4 de março de 2013
Oblivion
VP in "O Coleccionador de Lágrimas"
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Apercebi-me que os livros nada têm que ver com literatura! Os livros são simplesmente a fotografia da literatura, captada, guardada entre páginas mortas... A literatura está lá fora, e para lê-la é preciso senti-la, vivê-la, não como quem a olha num baú de recordações, mas como quem a respira a cada segundo, como quem chama pela vida que teima fugir...
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Sorrisos e Saudade
Que fazer quando as lágrimas da perda beijam o rosto onde
outrora um sorriso morou? Nada, deixá-las simplesmente fluir – arrastar o corpo
para baixo de um chuveiro abandonado e deixar que a água leve as lágrimas e que
a alma que sangra se deixe lentamente curar, acreditando que o amanhã, aquele
horizonte intangível, irá regressar envolto numa tela mais colorida.
Quando vemos a morte tomar conta de alguém que nos é
querido – quando a inevitabilidade da existência se acaba diante dos nossos
olhos – o mundo simplifica-se, a sua cor entristece, torna-se mais cinzenta,
contudo, simplifica-se. Os adornos do dia-a-dia, os tormentos avulsos das
nossas efémeras preocupações, esbatem-se, desvanecem, e fica somente aquilo que
importa: Os sentimentos – aqueles frágeis blocos que erguem o muro da nossa
humanidade e fazem bater as válvulas metafísicas do coração.
Voltamos
a chorar, porque as lágrimas não são mais que o ADN dos nossos sentimentos, são
o pulsar de um amor que não termina, um amor por alguém que estava entre nós, e
agora que esse alguém abandonou o mundo físico, é exactamente nas lágrimas que
se encontra a porta de uma nova casa – a memória. É na memória que perpetuamos
a existência de quem partiu, guardamos cada momento, cada beijo, cada abraço,
cada simples sorriso, no baú das nossas recordações e permitimos que aqueles
que escrevem o livro do nosso amor vivam para sempre dentro da nossa saudade.
Choramos
um pouco mais, porque as lágrimas são o sangue da alma, e se a alma não se
permitir a sangrar, a dor permanece abafada, presa a um luto que não se permite
fazer, por isso chorámos, e lentamente, a dor, mesmo não desaparecendo,
transforma-se num aperto que as palavras não descrevem mas que a saudade
compreende, e continuamos, tentando fazer o melhor, tirar o melhor da vida,
fazendo por honrar a memória de quem partiu, seguindo a estrada da existência,
acreditando que aqueles que nos deixaram sentiriam orgulho na jornada que
escolhemos para nós.
Assim,
num livro infindável de sensações vamos escrevendo cada dia, esperando que,
quando o nosso chegar, tenhamos deixado no mundo razões para que outros, tal
como nós agora fazemos, chorem a nossa perda e sorriam com a nossa recordação.
Agregado
a estas palavras, deixo as últimas lágrimas em honra a alguém que partiu,
alguém do qual o nome simboliza verdadeiramente a sua vida e a herança que
deixou nos que tiveram o privilégio de a conhecer – Luz.
Nestas
palavras, dizia, deixo as últimas lágrimas, abrindo caminho para os sorrisos e
a saudade que ficarão para sempre guardados no mar dos meus pensamentos – nas
memórias dos dias felizes que iluminaram a sua existência.
Em memória a Maria da Luz, e a
todos os que partem e deixam no mundo um legado de lágrimas e sorrisos de
saudade.
Vítor
Pereira
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