Somos estrangeiros de todas as coisas que os outros vêem em nós. Ao mesmo tempo somos prisioneiros de tudo o que somos e escravos do que não podemos ser. No meio de tudo isto fica a poesia de todas as palavras que deitámos para fora dos desejos, em linha recta para o fundo de nós. Jogámos ao esconde-esconde da vida a contar idades em pétalas de mal-me-quer como quem espera pelo arco-íris onde não existe chuva nem sol. A felicidade é uma alegria possível em passos de dança que bebemos com os olhos – é mais difícil o desejo de ser-se feliz do que o é ser-se feliz de facto. Porquê? Entre todas as águas que nos podem avivar a sede, preferimos sempre as que nos salgam o preto e branco dos lábios e nos fogem pelos riachos do paladar confuso das mãos.
Quando comprámos um par novo de calçado, apropriámo-nos de todos os caminhos que este poderia dar nos pés de outra pessoa. Acontece o mesmo quando damos a mão a alguém – quase sempre existe um par de mãos que se perde dos pincéis de tacto e se apaga no presente de um outro futuro qualquer. Movimento mármore.
Deram-nos olhos para podermos ser cegos;
E eu não soube aprender que o essencial à vida não foi feito para os olhos – quem duvide que experimente sorrir o rosto ao sol fresco da Primavera, e se deixe depois abrir os olhos para o ver. O pior cego é o que quer ver. Um som surdo de movimento e uma imagem muda de cor é quanto basta para que vejamos o chão como quem se olha ao espelho – o espaço que calcas és tu.
Dizem os cientistas que o cérebro humano é equivalente ao Universo – gastámo-lo em trivialidades, a um e ao outro:
Não precisa de poesia quem nasceu para ser poema
Precisa de poesia quem viveu para sofrer poeta
Entre um poema e um poeta existe todo o espaço do Universo –
O espaço maior entre dois objectos é quando se tocam.
P.S.:
Todos os poetas acabam assassinados pela poesia que os matou;
Ninguém se atreve a matar um poema.
Nenhum poema devia viver mais que uma borboleta.
Vítor Pereira
Crónicas do Homem de Vento
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