O
Livro
A ampulheta continuava a gerir o tempo, nunca parava. As
areias renovavam-se constantemente, caíam, grão a grão, escorrendo lentamente
pelo orifício que une as duas partes da ampulheta – as duas âmbulas – a da
cima, o espelho do presente que corre e que a cada segundo se esgota, a de
baixo, a tumba das areias de um passado que se acabou. Não precisava de ser
virada ao contrário, essa lei aplicava-se às ampulhetas comuns, não a esta, a
primeira das ampulhetas. A areia corria de mãos dadas com o tempo, e tal como o
tempo, era perpétua e infinita, uma cascata que incessantemente se renova, sem
que a intervenção dos deuses seja necessária.
O livro permanecia aberto, escrevia-se a si mesmo. Sem
que qualquer mão fosse requerida, os signos da língua original apareciam sobre
as páginas brancas, simples páginas brancas, sem linhas, sem marcas de água,
meras páginas brancas, nas quais as palavras apareciam numa corrente fluida e
alinhada. Somente as páginas precisavam de ser viradas manualmente, tudo o
resto era deixado aos desígnios do destino, ao universo de um caos decifrado,
sem acasos, sem divindades. Tão natural como o universo: as areias do tempo
corriam, o livro do tempo escrevia-se.
Ambos – o livro e a ampulheta – estavam onde sempre
haviam estado, numa mesa feita de um material desconhecido, numa sala sem
espaço e sem forma, um compartimento sem idade que não guardava mais que isto:
uma mesa, um livro e uma ampulheta.
O Guardião tinha uma única obrigação, virar as páginas do
livro sempre que uma página ficasse completa, para que as linhas do tempo se
escrevessem ininterruptamente, sem atrasos nem demoras. A única regra, não
tocar em nada mais para além das páginas do livro, unicamente quando estas
tinham de ser viradas. Este era o contrato, tatuado na pele, nos braços do Guardião,
duas regras, virar as páginas, não tocar em nada.
Tinha as formas de um homem, não que ele soubesse quais
eram as formas de um homem, ou que existiam seres semelhantes à sua imagem,
conhecia as formas do seu corpo e as linhas do seu rosto sem expressão, não
nitidamente, apenas o que via reflectido no vidro cilíndrico da ampulheta que
se erguia na mesa. Tudo quanto conhecia estava naquela sala: aquela mesa, aquele
livro, aquela ampulheta e num dos cantos, escondida, quase invisível, coberta
por um manto de sombras, a cadeira onde repousava, onde esperava pelas páginas,
na sua interminável missão.
Mais
que isto, só os fragmentos textuais que conseguia vislumbrar nos curtos segundos
entre o virar de cada página, era assim, num labirinto de parágrafos
incompletos, que aprendia as histórias do mundo, as linhas da existência dos
homens, das plantas e dos animais, das pedras e de tudo quanto existia.
Da
sua própria existência, nada sabia. Simplesmente existia, eterno e imutável.
Não recordava as origens da sua criação, desconhecia a génesis da sua
existência. Existia e cumpria a sua tarefa, a cada momento, como sempre havia
sido. Sentava-se nas sombras, na cadeira fria e dura, e esperava, virava uma
página, permitia-se a um breve vislumbre por algumas palavras, a mais o
movimento do virar da página não permitia, depois, decorava as palavras e
voltava para as sombras e para a espera.
As
palavras, nas sombras, as palavras iluminavam-lhe o pensamento. De todos os
seres e de todas as coisas escritas, um ser sobrepunha-se aos outros,
repetia-se ao longo das páginas do livro do tempo, o Ser Humano, e junto com
ele, vinham as palavras que o definiam, o Amor, o Ódio, as Relações, as
Guerras, a Vida e a Morte… Agarrada a todas estas palavras humanas, vinha a
expressão que se erguia por trás de todos os actos da humanidade, o Livre
Arbítrio.
O
Guardião lia as palavras, como sempre havia lido, mesmo não sabendo como as
sabia ler. Nem sempre as compreendia, nem sempre lhes encontrava o sentido, mas
ao longo dos últimos anos, dos últimos séculos, à medida que a referência ao ser
humano aparecia cada vez mais no livro, o Guardião fez por aprofundar o seu
conhecimento na raça humana, por tentar perceber os seus actos, a raiz das suas
acções.
Porém,
como um veneno que se espalha, quanto mais lia sobre os homens, mais questões
se formavam no seu pensamento. Os sentimentos, as relações, as guerras e o
livre arbítrio. Era difícil entender os sentimentos e as relações, mormente
para um ser que sempre esteve sozinho, enclausurado numa sala perdida no tempo
e no espaço, naquela sala, sem nunca interagir com ninguém. Mas se os
sentimentos eram o que diferenciava os humanos dos outros seres, porque razão
criavam eles guerras, confrontos sem sentido, porque se viravam uns contra os
outros? E o livre arbítrio?
Foi
assim que, pela primeira vez, a dúvida se formou no interior do Guardião. Se o
livro escrevia e delineava tudo o que era suposto acontecer, como era possível
existir o livre arbítrio, como podiam os homens escrever o seu próprio destino?
Seria o livro a decidir os desígnios da humanidade, ou limitar-se-ia a apontar
as histórias dos homens, a história do mundo?
Como
quem respira pela primeira vez, como quem sente o sangue quente correr nas
veias depois de uma existência no abismo do gelo, o Guardião levantou-se da
cadeira, com um passo largo deixou o sepulcro das sombras e perfilou-se à
frente da mesa. O livro esperava-o, respirava a sua corrente de palavras,
esperava pelo guardião, mas pela primeira vez, não esperava pelo virar da
página, a página ia ainda a meio, e de repente, quando os olhos do Guardião
alcançaram a corrente de palavras, a escrita parou, as palavras deixaram de se
escrever, o livro parou de escrever…
O
Guardião olhou o último parágrafo gravado no livro do tempo, era curto, as
palavras eram simples, mas o assunto em questão, nunca havia entrado naquele
livro, era como se uma nova personagem tivesse repentinamente surgido no
universo, calmamente, o Guardião leu a passagem:
“Como quem respira pela primeira vez, como
quem sente o sangue quente correr nas veias depois de uma existência no abismo
do gelo, o Guardião levantou-se da cadeira, com um passo largo deixou o
sepulcro das sombras e perfilou-se à frente da mesa. O livro esperava-o,
respirava a sua corrente de palavras, esperava pelo guardião, mas pela primeira
vez, não esperava pelo virar da página, a página ia ainda a meio, e de repente,
quando os olhos do Guardião alcançaram a corrente de palavras, a escrita parou,
as palavras deixaram de se escrever, o livro parou de escrever…”
Vítor
Pereira