quinta-feira, 20 de março de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
Crónica de um recluso das Estações
O Inverno de Março vem trazendo o Sol da Primavera que está para chegar. Quase dá vontade de viver. Quase. O tempo perde-se. Perde-se dentro do não o saber mais – perde-se a noção dos dias, das horas, dos minutos… Esta frase que escrevi, terei demorado um minuto a pensá-la, ou tê-la-ei pensado para sempre? O tempo perde-se. Perde-se a idade também. E a vida, ou o que sobra dela, conta-se dentro do brilho que ocasionalmente o céu nos permite assistir – seja uma fatia de luar, ou o véu de uma estrela que, por um momento, parece brilhar para mim, por um breve segundo – ou quem sabe uma eternidade – quase me pertence. E só assim posso descansar por momentos, abandono a vida para dentro de uma luz que não me pertence, e, por entre as grades da cela onde o corpo envelhece, deixo a alma respirar um pouco, quase sorrir, quase um sorriso.
Noite outra vez. Felizmente noite, infelizmente noite. Tudo cabe dentro dela – minha advogada, psicóloga, juíza, carrasca… A culpa é o privilégio dos sonhadores; o luar é o sorriso para onde deitámos a Saudade. Além disto, existe apenas o corpo. Em dias de chuva, naqueles em que conseguimos abandonar a cela do tal corpo, quase é possível vermos a alma, se olharmos bem para dentro das lágrimas, a alma é como um véu que se desenha entre o espaço que se cria entre o vento e a dor.
Porque nos pesa tanto o corpo? Talvez por não sermos capazes de elevar os sentidos, e as cascatas de solidão nascem para fora das mãos que suportam a cabeça cansada. A culpa é o privilégio dos sonhadores; o amor é o movimento que vem dar sentido à perda; e vice-versa.
Arrasto o corpo pela cela escura, que o é mesmo que dizer que arrasto a cela pelo corpo escuro. Numa parede, com o pauzinho de giz, faço mais um traço na saudade – é a única coisa que continuo a tomar nota, não os dias, não os meses, apenas saudade. É o mesmo que dizer que desenho traços em cima de traços, porque o espaço não cabe em mim, e a saudade multiplica-se para dentro dela. Que te falta? Solidão? Lágrimas? Sofreguidão? Tenho de tudo para partilhar… O nada é o melhor presente, é o tudo que tenho para oferecer.
Agora vou-me. Para onde? Não sei. Para dentro do sonho talvez, para fora da vida, pouco importa. Vou para a chuva para ser sozinho. Procurar uma alma que me procure, uma que não seja minha, mas que me queira pertencer dentro da liberdade de uma memória renovada pela Primavera que demora a chegar.
A culpa é o privilégio dos sonhadores; o tempo é a sentença.
Vítor Pereira
segunda-feira, 10 de março de 2014
# Nem Sei
Bem... Vou escrever duas palavras, qualquer par de palavras serve. Vou escrevê-las só para poder dizer o que fica dito no espaço silencioso que as separa:
Nem sei.
Um "nem sei" é inteiramente capaz de dizer – com clareza, com uma exactidão recta, perfeita – tudo aquilo que quero dizer. E o olho para ti, não directamente para ti, porque não estás aqui; mas olho para ti, para dentro da saudade e digo-me, digo-te "Nem sei".
Porque te digo tal coisa? Porque sei, e sei que talvez não saibas, mas sei que tens de saber que sei, que tudo o que sei cabe na imensidão que separa o "Nem" do "Sei", na distância entre um som e o outro, no centésimo que vive dentro estrada que percorre as duas palavras, digo-te tudo o que a volatilidade de todas as palavras não pode dizer.
E nisto já escrevi… o quê... umas cento e cinquenta palavras?
Porque raios o faço então, se tudo o que quero dizer-te cabe no espaço que mora entre duas palavras? Bem talvez o faça por reflexo, ou simplesmente, porque é só isto que sei… Mas a resposta melhor talvez more precisamente nesse tal espaço que voa entre cada par de palavras – matemática rudimentar portanto: quantas mais palavras escrever, mais espaços entre elas terei.
Não, não o faço por precisar de muitos espaços para te dizer tudo o que te quero dizer, não! Repito: na brecha que divide o “nem” do “sei” está tudo o que te quero dizer, o que te digo em todas as outras brechas é precisamente o mesmo. Portanto, escrevo simplesmente para dentro da esperança de que, por entre todos estes espaços de silêncio que te deixo, por mais que te percas, por mais que hesites ou duvides, sejas capaz de encontrar uma, apenas uma das tantas brechas que te deixo, e aí, encontres tudo o que te quero dizer em todas as coisas que te digo no meio de todas as palavras inúteis que escrevo.
Nem sei.
P.S.: Fui ao espelho olhar-me por um momento.
Que bem que me assenta a saudade…
Vítor Pereira
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