... “A maioria dos homens não tem capacidade para fazer o que você fez” disse o Doutor, “O quê?”, “Aperceber-se dos erros. Aperceber-se de que caminhava por um caminho errado e ser capaz de o alterar”, “Não sei se terei alterado alguma coisa, continuo o miserável que sempre fui, simplesmente abandonei as fortunas, mas o mundo não se alterou por minha causa, por certo, o lugar que deixei vazio, já alguém o tomou”, “Por certo, mas o importante não é o caminho que deixou para trás e que alguém tomou por si, o importante é o caminho que alguém deixou e que você foi capaz de tomar para si”, “Como assim?” questionou o Homem, “Essa menina, abandonaram-na, e você tomou para si, por livre vontade, a tarefa de a devolver ao mundo, quem sabe mesmo de lhe dar um. Se cada um de nós salvasse um outro, salvar-nos-íamos uns aos outros e todos estariam salvos, mas isso nem é o mais relevante, por vezes tomamos as coisas por demasiado grandes e complexas, como se tivéssemos de salvar o mundo sozinhos, quando realmente basta que encontremos forma de nos salvar a nós mesmos, cada homem encontrar a sua salvação, o seu verdadeiro caminho, e talvez por si só, o mundo se salve também”, “E o Doutor, já encontrou a sua salvação?” esta era a verdadeira questão, o Homem fê-la, não na esperança de ver na resposta o caminho para a sua, mas com o desejo de saber que é possível, como que esperando um alento para o seu próprio alento, “Espero que um dia possa olhar para mim, e encontre a resposta sem que eu precise de lha dar” respondeu o Doutor.
As palavras cessaram, o rio retornou à sua corrente normal, voltando a abrir a pauta da natureza tocada ao compasso do coração, unindo-se a todos os outros sons, repetindo assim a ode número um, aquela que nenhum homem precisou de compor pois foi sobre a batuta serena desta orquestra que ele mesmo foi criado, o luar livrou-se da cortina nevoenta que lhe esbatia a visão, e vestiu-se também a rigor, para assistir, como em todas as noites, ao teatro da existência. Bem no alto do seu camarote branco, nesta noite em particular, dedicou a atenção a um dos infinitos actos que lá em baixo ocorriam, tantas são as tragédias, tantos os tormentos que preferiu hoje, debruçar tranquilamente o seu manto áureo sobre três almas que sobre os lençóis do Eufrates, se deitavam no conforto da terra para dormir, quem sabe para sonhar com ela.
Vítor Pereira
O Coleccionador de Lágrimas
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