Que fazer quando as lágrimas da perda beijam o rosto onde
outrora um sorriso morou? Nada, deixá-las simplesmente fluir – arrastar o corpo
para baixo de um chuveiro abandonado e deixar que a água leve as lágrimas e que
a alma que sangra se deixe lentamente curar, acreditando que o amanhã, aquele
horizonte intangível, irá regressar envolto numa tela mais colorida.
Quando vemos a morte tomar conta de alguém que nos é
querido – quando a inevitabilidade da existência se acaba diante dos nossos
olhos – o mundo simplifica-se, a sua cor entristece, torna-se mais cinzenta,
contudo, simplifica-se. Os adornos do dia-a-dia, os tormentos avulsos das
nossas efémeras preocupações, esbatem-se, desvanecem, e fica somente aquilo que
importa: Os sentimentos – aqueles frágeis blocos que erguem o muro da nossa
humanidade e fazem bater as válvulas metafísicas do coração.
Voltamos
a chorar, porque as lágrimas não são mais que o ADN dos nossos sentimentos, são
o pulsar de um amor que não termina, um amor por alguém que estava entre nós, e
agora que esse alguém abandonou o mundo físico, é exactamente nas lágrimas que
se encontra a porta de uma nova casa – a memória. É na memória que perpetuamos
a existência de quem partiu, guardamos cada momento, cada beijo, cada abraço,
cada simples sorriso, no baú das nossas recordações e permitimos que aqueles
que escrevem o livro do nosso amor vivam para sempre dentro da nossa saudade.
Choramos
um pouco mais, porque as lágrimas são o sangue da alma, e se a alma não se
permitir a sangrar, a dor permanece abafada, presa a um luto que não se permite
fazer, por isso chorámos, e lentamente, a dor, mesmo não desaparecendo,
transforma-se num aperto que as palavras não descrevem mas que a saudade
compreende, e continuamos, tentando fazer o melhor, tirar o melhor da vida,
fazendo por honrar a memória de quem partiu, seguindo a estrada da existência,
acreditando que aqueles que nos deixaram sentiriam orgulho na jornada que
escolhemos para nós.
Assim,
num livro infindável de sensações vamos escrevendo cada dia, esperando que,
quando o nosso chegar, tenhamos deixado no mundo razões para que outros, tal
como nós agora fazemos, chorem a nossa perda e sorriam com a nossa recordação.
Agregado
a estas palavras, deixo as últimas lágrimas em honra a alguém que partiu,
alguém do qual o nome simboliza verdadeiramente a sua vida e a herança que
deixou nos que tiveram o privilégio de a conhecer – Luz.
Nestas
palavras, dizia, deixo as últimas lágrimas, abrindo caminho para os sorrisos e
a saudade que ficarão para sempre guardados no mar dos meus pensamentos – nas
memórias dos dias felizes que iluminaram a sua existência.
Em memória a Maria da Luz, e a
todos os que partem e deixam no mundo um legado de lágrimas e sorrisos de
saudade.
Vítor
Pereira
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