Vítor Pereira

segunda-feira, 4 de março de 2013

Oblivion

"Passam poucos minutos das vinte e três horas, o Homem vai ao volante do carro, em direcção ao seu pequeno palácio. No rádio do carro vai passando uma notícia que dá conta de um atentado à bomba que ocorrera num daqueles países a que chamamos de terceiro mundo. É uma interessante designação, chamar-se a um país subdesenvolvido, ou pobre, ou miserável, de país de terceiro mundo, não tanto pelo facto termos um único mundo e de todos vivermos nele, mas pelo gosto com que ousamos proferir tais palavras, como que com um orgulho enorme por vivermos nós, num mundo muitos degraus acima desse terceiro. “Acaba de ser confirmado, treze mortos e dezassete feridos na explosão de um autocarro em…”, o resto da notícia, se é que nos interessa a nós, não interessou ao Homem, que, invadido pelo tédio de um relato que lhe era completamente desinteressante, desligou o rádio. É esta uma das vantagens de viver no primeiro mundo, quando o acaso nos mostra uma qualquer desgraça, não há nada mais fácil que mudar de canal, ou de estação de rádio, ou virar a página do jornal, e seguir a vida como se tivesse passado por nós, não mais que uma simples amostra de um filme reles."

VP in "O Coleccionador de Lágrimas"




Sem comentários:

Enviar um comentário