“…
‘e a bala poderia ter vindo morrer ao meu coração…’ disse-me assim, aquele
homem ferido, assim, como um poeta que pela primeira vez se apercebe da
realidade da vida e que pela primeira vez também, de olhar apaixonado e
desconcertado, usa as palavras na poesia de uma realidade outrora desconhecida.
Como se todas as palavras antes proferidas, todas as páginas da vida passada
tivessem sido isso mesmo, meras palavras, páginas baças de uma ficção agoniada
pela mentira de cada suspiro, e de repente, manchado sobre o rubro vivo do
sangue, apercebe-se de algo tão simples como a existência de um coração, um
coração que sangra e que pode morrer sobre o compasso de um infortúnio.
A
razão porque escrevo esta passagem aleatória neste diário que há tanto tempo
repousava na solidão fechada de que eu próprio tenho sido refém, deve-se ao
olhar, à forma filosófica das palavras, aos gestos deste homem que tanto me
recordam um homem que há muitos anos viveu dentro deste homem que agora sou eu,
aquele olhar profundo de quem continuamente se interroga sobre as razões da
própria razão e acima de tudo, aquela tão simples pergunta, que devora todo o
ser humano, mas que só alguns têm o discernimento de a enfrentar de olhar e
alma aberta, uma pergunta tão simples como “Quem Sou Eu?”. Agora dormem, ele e
aquela menina, como pai e filha, mesmo que ambos o neguem, mesmo que nenhum
deles o saiba, sobre este sol africano onde os primeiros pais terão dormido
lado a lado com os filhos indefesos, aqui se repete, pai e filha dormindo sobre
a sombra solitária de uma árvore que não é mais que isso, uma árvore solitária.
Do nada, volta-me o gosto pela escrita, as palavras, também para mim, parecem
voltar a fazer algum sentido, como se ao olhar um poema que não me pertence, me
viesse a vontade de o escrever pelas minhas próprias palavras, e, me voltasse
também aquela velha pergunta, mais velha que este trapo que agora sou, Quem Sou
Eu? Um velho errante que trata os que carecem de assistência? Um desgastado
espectador que escreve as poesias de um mundo que o ignora? Quem sou eu? E
vendo-os dormir, sinto levemente a tranquilidade de não o saber. Faz-se tarde,
prepararei o jantar, que estas pobres almas não devem comer vai para muitas
horas.”
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