Bem... Vou escrever duas palavras, qualquer par de palavras serve. Vou escrevê-las só para poder dizer o que fica dito no espaço silencioso que as separa:
Nem sei.
Um "nem sei" é inteiramente capaz de dizer – com clareza, com uma exactidão recta, perfeita – tudo aquilo que quero dizer. E o olho para ti, não directamente para ti, porque não estás aqui; mas olho para ti, para dentro da saudade e digo-me, digo-te "Nem sei".
Porque te digo tal coisa? Porque sei, e sei que talvez não saibas, mas sei que tens de saber que sei, que tudo o que sei cabe na imensidão que separa o "Nem" do "Sei", na distância entre um som e o outro, no centésimo que vive dentro estrada que percorre as duas palavras, digo-te tudo o que a volatilidade de todas as palavras não pode dizer.
E nisto já escrevi… o quê... umas cento e cinquenta palavras?
Porque raios o faço então, se tudo o que quero dizer-te cabe no espaço que mora entre duas palavras? Bem talvez o faça por reflexo, ou simplesmente, porque é só isto que sei… Mas a resposta melhor talvez more precisamente nesse tal espaço que voa entre cada par de palavras – matemática rudimentar portanto: quantas mais palavras escrever, mais espaços entre elas terei.
Não, não o faço por precisar de muitos espaços para te dizer tudo o que te quero dizer, não! Repito: na brecha que divide o “nem” do “sei” está tudo o que te quero dizer, o que te digo em todas as outras brechas é precisamente o mesmo. Portanto, escrevo simplesmente para dentro da esperança de que, por entre todos estes espaços de silêncio que te deixo, por mais que te percas, por mais que hesites ou duvides, sejas capaz de encontrar uma, apenas uma das tantas brechas que te deixo, e aí, encontres tudo o que te quero dizer em todas as coisas que te digo no meio de todas as palavras inúteis que escrevo.
Nem sei.
P.S.: Fui ao espelho olhar-me por um momento.
Que bem que me assenta a saudade…
Vítor Pereira
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