Vítor Pereira

quarta-feira, 12 de março de 2014

Crónica de um recluso das Estações

O Inverno de Março vem trazendo o Sol da Primavera que está para chegar. Quase dá vontade de viver. Quase. O tempo perde-se. Perde-se dentro do não o saber mais – perde-se a noção dos dias, das horas, dos minutos… Esta frase que escrevi, terei demorado um minuto a pensá-la, ou tê-la-ei pensado para sempre? O tempo perde-se. Perde-se a idade também. E a vida, ou o que sobra dela, conta-se dentro do brilho que ocasionalmente o céu nos permite assistir – seja uma fatia de luar, ou o véu de uma estrela que, por um momento, parece brilhar para mim, por um breve segundo – ou quem sabe uma eternidade – quase me pertence. E só assim posso descansar por momentos, abandono a vida para dentro de uma luz que não me pertence, e, por entre as grades da cela onde o corpo envelhece, deixo a alma respirar um pouco, quase sorrir, quase um sorriso.

Noite outra vez. Felizmente noite, infelizmente noite. Tudo cabe dentro dela – minha advogada, psicóloga, juíza, carrasca… A culpa é o privilégio dos sonhadores; o luar é o sorriso para onde deitámos a Saudade. Além disto, existe apenas o corpo. Em dias de chuva, naqueles em que conseguimos abandonar a cela do tal corpo, quase é possível vermos a alma, se olharmos bem para dentro das lágrimas, a alma é como um véu que se desenha entre o espaço que se cria entre o vento e a dor. 

Porque nos pesa tanto o corpo? Talvez por não sermos capazes de elevar os sentidos, e as cascatas de solidão nascem para fora das mãos que suportam a cabeça cansada. A culpa é o privilégio dos sonhadores; o amor é o movimento que vem dar sentido à perda; e vice-versa.

Arrasto o corpo pela cela escura, que o é mesmo que dizer que arrasto a cela pelo corpo escuro. Numa parede, com o pauzinho de giz, faço mais um traço na saudade – é a única coisa que continuo a tomar nota, não os dias, não os meses, apenas saudade. É o mesmo que dizer que desenho traços em cima de traços, porque o espaço não cabe em mim, e a saudade multiplica-se para dentro dela. Que te falta? Solidão? Lágrimas? Sofreguidão? Tenho de tudo para partilhar… O nada é o melhor presente, é o tudo que tenho para oferecer. 

Agora vou-me. Para onde? Não sei. Para dentro do sonho talvez, para fora da vida, pouco importa. Vou para a chuva para ser sozinho. Procurar uma alma que me procure, uma que não seja minha, mas que me queira pertencer dentro da liberdade de uma memória renovada pela Primavera que demora a chegar.

A culpa é o privilégio dos sonhadores; o tempo é a sentença.

Vítor Pereira



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