“Tenho
saudades tuas” – é uma frase que gastámos constantemente, que dedicámos vezes
sem conta àqueles dos quais a falta nos faz menores. Não te digo que a frase
não faça sentido, tão pouco que não tenha o seu valor, mas não é isso que tenho
de ti. “Sinto saudade de ti” – Saudade ao invés de Saudades, é um dos exemplos
no qual o singular faz o plural ser menos. É dentro da saudade singular que se
faz o sentido ímpar, nunca repetível, a saudade é o ADN da alma, o escuro onde
vemos aquele rosto único desenhado no silêncio. Mas aqui o detalhe não se
reserva à saudade singular, é no “Sinto” que está a diferença – Sinto saudade
de ti. Como pode um corpo ter – e aqui vinquemos a palavra Ter – saudade de
outro? A saudade não se tem, sente-se. Porque não é uma posse, é uma ausência –
o todo que falta dentro do vazio e que lá não cabe, o vão que engole o todo sem
o poder guardar. A saudade é tudo o que falta, tudo o que não se é.
“Sinto
saudade de ti” – não, também não é isto que quero dizer-te. Porque a frase é
disfarçada, é uma frase bonita que se esconde à frente do egoísmo, há quem
chame a isso eufemismo. “Ti” – Ti é um eufemismo do “Eu”, ou, para acertarmos a
lógica da frase, “Mim”, Ti é um eufemismo do Mim. Porque no fundo é isso que
pretendo dizer-te, Sinto saudade de mim. Sinto sim, a falta de olhar o teu olhar,
mas do que sinto saudade é de me ver dentro dele. Faz-me falta ver o teu rosto,
mas sinto saudade de ver o meu, dentro – quem sabe – da saudade que tu tens de
ti. Se sinto falta do teu abraço? Sinto sim, todos os dias, todos os momentos…
mas do que sinto mesmo saudade, é do meu abraço a abraçar-me em ti.
E
depois disto que falta? Falta a saudade da saudade da falta. Sim meu amor,
sinto saudade da saudade que tenhas de ti – e que sofras de a querer matar em
mim. No fundo é isto o Universo – a distância infinita entre dois corpos que
viajam em direcções opostas, na esperança de que a alma seja um lugar redondo
que se acabe no lugar onde começou, no princípio do encontro. Entre uma coisa e
outra existem todas as coisas – aqui está uma boa definição do nada. Como se
pode perder algo que nunca foi nosso? Assim mesmo, só o que nunca foi nosso se
pode perder, porque, quando se acabarem os homens, entenderemos que o que é
nosso não se pode nunca perder, porque o que é nosso nunca nos pertenceu. Faço
sentido? Por certo que não, mas já o disse antes, vá alguém tentar explicar à
alma que valor têm as palavras.
Possuímos
apenas tudo o que nos falta.
Falta-me
saudade de nós.
P.S.:
Não te esqueças de hoje.
Vítor Pereira
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