A questão fundamental de uma despedida, a dor maior, não está no despedires-te de quem vai embora, não está no dizeres adeus a quem não volta mais, está sim no adeus que forçosamente tens de dizer à parte de ti que te abandona para sempre. Que fazer numa despedida, que fazer quando o pedaço de ti que te deixa é maior que o que sobra em ti? Nada. Apenas deixá-lo ir, aceitar que afinal de contas o que vai não te pertence. Tudo o que és pertence a alguma parte do mundo, tudo o que és faz-se no espelho de outros… Por isso nos custa tanto a solidão, não por estarmos sozinhos de gente, mas por estarmos abandonados de nós mesmos.
Mas a questão é, será possível viver? Haverá vida depois da morte? Não. Sim. Não, porque não podes voltar a ti, não existe regresso. E sim, porque até na maior catástrofe sobra alguma semente que permite o recomeço. Sabes, no fundo sabes que não existe a possibilidade de seres quem eras. Num cantinho do peito, bem lá no fundo, por mais que o negues, sabes que queres regressar a ti, mas não podes. E é assim, dentro da contrariedade que te arde dentro das feridas nunca cicatrizadas que aceitas que, ainda que não haja vida na felicidade, poderá existir alguma felicidade na vida, a felicidade possível. Esta, de todas as lições, é a mais difícil, por isso a escreves, por isso a repetes todos os dias, para combater a certeza de que preferes a tristeza profunda do que foi embora à felicidade do que te sobra.
Chega um tempo em que compreendes que não precisas de ser feliz para viver, não precisas de ser feliz para ter motivos para viver. Precisas apenas de alguma vida que se encarregue de ti, que te regue a solidão com o vislumbre de um curto sorriso, que de tempos a tempos te beije a pele com o tacto, e, acima de tudo, que te queime as antigas tristezas com tristezas novas. Porque um dia, um dia a vida acaba – o sangue cessa, o oxigénio nega-te e o que quer que fique no mundo pertence-te apenas na medida do que deixaste nele. O que fica no mundo mede-se dentro do descontentamento alegre das lágrimas que semeaste, e vais-te, o que havia sobrado de ti pode finalmente adormecer e partir… partir ao encontro daquele outro “eu” que há tanto tempo te havia abandonado. Por fim reencontras-te fora do corpo que deixou de te pertencer.
Vítor Pereira
Um Livro Inventado Hoje
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