Vítor Pereira

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Entre o Limbo e as Estrelas

Mais uma noite. Cada dia é um novo tormento. E a vida, a vida são estas quatro paredes vazias e esta página em branco. Tempo e paciência – desfaço os segundos entre o fumo do cigarro que se acabou e o próximo que planeio fumar, são formas de gastar a mente com pensamentos menos profundos para poder fugir aos outros mais desassossegados. Que fazer ao coração que bate à espera dos segundos que não chegam? Deixá-lo bater. Acho que o Einstein abordou magistralmente a questão da relatividade do tempo no que confere à parte física do universo. E a alma? Alguém se terá já lembrado de estudar a relatividade do passar do tempo na alma? Talvez os poetas já o tenham feito, “num segundo do tamanho de uma eternidade” são coisas que se costumam encontrar nos livros – encontram-se mais verdades nos livros de ficção do que nos livros de ciência.
É precisamente isso. Uma eternidade dentro de cada segundo. E entre ela, apenas a espera. Limbo. Como se faz para passar à frente no tempo? Ou então pará-lo de vez? O mais curioso do limbo é que este te obriga a assistir ao filme da tua vida, vezes e vezes sem conta. As leis da física também ensinam que a própria existência do tempo, não só a sua percepção, é relativa, dizem que todos os momentos já se encontram gravados numa linha definida no momento da criação. Vá alguém explicar isso à alma.
Ponho-me a pensar na importância do ser humano. Olhámos para as estrelas e vemos poesia dentro do seu brilho. Mas depois logo vimos dizer que a poesia somos nós que a criámos no vislumbre de cada estrela para depois a fazer-mos em nós. Seremos nós a criar a poesia nas estrelas, ou são elas que nos fazem poetas? Imagino uma estrela a olhar cá para baixo e a dizer “Aquele ali, entre aquelas quatro paredes, vou amaldiçoá-lo, vou fazer dele poeta!” E eu, alegre de tão pouco, ponho-me a olhar para elas, a criar linhas de palavras para lhes dar beleza, como se fosse isso um dom, como se estrela alguma precisasse de mim para brilhar. Mas que posso eu fazer? É isto que sei. Vou deixar de o fazer? Como?

(Fui lá fora espreitar. Que bonito estava o céu. As lágrimas também têm luz)

A alma é um Universo maior.

Vítor Pereira

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