Mais uma
noite. Cada dia é um novo tormento. E a vida, a vida são estas quatro paredes
vazias e esta página em branco. Tempo e paciência – desfaço os segundos entre o
fumo do cigarro que se acabou e o próximo que planeio fumar, são formas de
gastar a mente com pensamentos menos profundos para poder fugir aos outros mais
desassossegados. Que fazer ao coração que bate à espera dos segundos que não
chegam? Deixá-lo bater. Acho que o Einstein abordou magistralmente a questão da
relatividade do tempo no que confere à parte física do universo. E a alma?
Alguém se terá já lembrado de estudar a relatividade do passar do tempo na
alma? Talvez os poetas já o tenham feito, “num segundo do tamanho de uma
eternidade” são coisas que se costumam encontrar nos livros – encontram-se mais
verdades nos livros de ficção do que nos livros de ciência.
É precisamente
isso. Uma eternidade dentro de cada segundo. E entre ela, apenas a espera.
Limbo. Como se faz para passar à frente no tempo? Ou então pará-lo de vez? O
mais curioso do limbo é que este te obriga a assistir ao filme da tua vida,
vezes e vezes sem conta. As leis da física também ensinam que a própria
existência do tempo, não só a sua percepção, é relativa, dizem que todos os
momentos já se encontram gravados numa linha definida no momento da criação. Vá
alguém explicar isso à alma.
Ponho-me a
pensar na importância do ser humano. Olhámos para as estrelas e vemos poesia
dentro do seu brilho. Mas depois logo vimos dizer que a poesia somos nós que a
criámos no vislumbre de cada estrela para depois a fazer-mos em nós. Seremos
nós a criar a poesia nas estrelas, ou são elas que nos fazem poetas? Imagino
uma estrela a olhar cá para baixo e a dizer “Aquele ali, entre aquelas quatro
paredes, vou amaldiçoá-lo, vou fazer dele poeta!” E eu, alegre de tão pouco,
ponho-me a olhar para elas, a criar linhas de palavras para lhes dar beleza,
como se fosse isso um dom, como se estrela alguma precisasse de mim para
brilhar. Mas que posso eu fazer? É isto que sei. Vou deixar de o fazer? Como?
(Fui lá fora
espreitar. Que bonito estava o céu. As lágrimas também têm luz)
A alma é um
Universo maior.
Vítor Pereira
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