Vítor Pereira

domingo, 8 de junho de 2014

"Porquê?"

Deparo-me por vezes, senão todas as vezes, com um desejo súbito de escrever, sem que eu saiba o porquê de o precisar de fazer. Como se as palavras, ainda por nascer, quisessem, necessitassem, por vontade própria, alheias à minha racionalidade, ganhar forma no papel. Assim, preto no branco. Chega a ser confuso. Faz-me querer pensar que não escrevo para colocar os sentidos no papel, mas sim para que seja o papel a colocar os sentidos em mim. Não, não é o caso de falsificar os sentimentos no papel para os poder falsificar em mim – isso fazem os poetas que amam a palavra mais que a vida – é sim uma tradução – a forma que a alma e o coração encontram para alcançar a mente com a intenção de a acalmar com o desassossego das sensações.
Nos últimos meses vivi uma poesia mais triste. Não que tenha sido menos sentida ou menos vivida, apenas mais triste. A tristeza acaba quase sempre por parecer ganhar à felicidade precisamente pelo erro da tradução. Como? A questão fundamental da tristeza é que levanta sempre mais questões que a felicidade. Talvez esta explicação seja também ela um erro. Não é que, numa perspectiva literal, a tristeza levante mais questões que a felicidade, tão pouco me parece que se dê o caso de que as respostas à tristeza sejam mais intangíveis que as da felicidade – porque, bem vistas as coisas, nenhuma pergunta tem uma resposta válida. Como assim? Tenho em mim que existem dois tipos de pergunta: aquela que colocámos sabendo já a resposta; e aquela que pomos, esperando não encontrar resposta. E no fundo, estas duas perguntas são precisamente a mesma! “Porquê?”
“Porquê?” é a pergunta fundamental, é todas as perguntas numa só; todas as respostas em nada. Inválida. Que quero eu dizer quando falo da invalidez de todos os porquês? Porque é precisamente na validação dos porquês que se encontra o erro primordial do ser humano – erro este que acaba por ser a raiz das suas tristezas e o que leva a formulação cíclica da questão. Portanto o porquê é o Alfa e o Ómega da tragédia humana. É necessário perceber que o ponto de interrogação em si, é o pilar basilar de toda a evolução – não teríamos sido capazes de estender a nossa inteligência, de superar as nossas próprias barreiras existenciais se não colocássemos perguntas. Isto é a minha crença. O único problema é o “Porquê?”. Porque se a pergunta é porquê, a resposta a todas elas é: Porque há catorze mil milhões de anos o universo, num golpe magistral, decidiu criar-se. A questão do porquê é que nos leva a pensar para trás, “Porque é que ontem aquilo aconteceu e agora eu fico assim triste e abandonado?... Porque é que passei anos a viver uma vida daquela maneira se me ia trazer a esta solidão que hoje toma conta de mim?” Blá blá blá.
E se invertêssemos a questão e o paradoxo temporal? Se em vez de um “Porquê?” colocássemos um “Para quê?” e olhássemos não para o passado mas para o futuro? Para que é que o universo foi criado há catorze milhões de anos? Para que pudéssemos fazer parte dele amanhã, no futuro, no segundo que virá depois deste que vou agora terminar. “Daqui a um segundo serei uma parte, um todo, uma fracção completa do Universo, irei então sorrir-lhe, sorrir-me.” Não, reformulemos a frase: “Daqui a um segundo Sou uma parte, um todo, uma fracção completa do Universo, sorrio-lhe, sorrio-me.”

- Para quê que estou triste agora?

- Para que no próximo segundo possas dar valor à felicidade que te vai procurar.

Vítor Pereira


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