Vítor Pereira

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O poema mais pobre do mundo



É uma tarefa difícil - entender que existe um abismo a separar um sorriso da felicidade. O mundo de hoje vive de pernas para o ar. Por ventura usaremos o sorriso para isso mesmo – para chamar a atenção à felicidade, para chamar por ela. Às vezes ponho-me a olhar as pessoas na rua, prendo a atenção nas que vão sozinhas. Hoje em dia já ninguém sorri sozinho, na melhor das hipóteses, uma pessoa sozinha é capaz de falsificar um sorriso enquanto espera que o flash da câmara do telemóvel dispare, não mais que isso. Mas às vezes ponho-me a olhar as pessoas na rua – procuro-lhes o sorriso nos olhos. 

Raramente encontro olhares a sorrir. Mas isto, por pior que seja, nem é o pior de tudo. Fazem-me imensa confusão aquelas pessoas que encontro a caminhar pela cidade de olhar preso na calçada – dedicam o alcance de um olhar à distância que separa um passo do outro, como se a vida não passasse disso. Mesmo nos dias mais tristes, percorro a cidade e procuro-a com o olhar, não com os passos, que se danem os passos, procura-a com o olhar. E às vezes dá vontade de focar o chão e abandonar o olhar nos passos que levam a lugar nenhum, mas para quê fazê-lo? A tristeza é um lugar-comum – é como aqueles vendedores da banha da cobra – não precisa de reserva, está sempre à disposição com tudo aquilo que não nos faz falta, é irrelevante procurá-la, facilmente ela nos encontra sem que a precisemos de chamar.

Tudo isto para dizer que aqui há uns dias, enquanto caminhava pela cidade sem olhar para os passos que eram meus, encontrei uma pessoa a sorrir com os olhos, uma, apenas uma, mas foi quanto me bastou para que pudesse eu sorrir também. O mais curioso é que esse sorriso que encontrei nas vistas de um estranho vinha iluminado de lágrimas. Sim, lágrimas. Não sei quem era, não o conhecia, mas posso afirmar, com toda a certeza, que aquilo que escorria de dentro dos olhos daquele desconhecido eram sorrisos molhados. Porquê? Porque as lágrimas também têm alma, aliás, arriscar-me-ia a dizer que as lágrimas são a matéria corpórea da alma. Mas isto pouco importa, tão pouco importam as razões que levaram aquele estranho a chorar um sorriso, essas pertencem-lhe apenas a ele. Para mim, roubei tudo aquilo que uma lágrima é capaz de partilhar e sorri com as minhas, apenas por saber que ainda existem sorrisos de verdade no mundo.

Uns metros à frente, já o estranho tinha sido engolido pela esquina que o levou, encontrei um outro desconhecido a salgar um sorriso húmido. Disse olá para dentro do reflexo que saía de dentro do vidro da montra da loja de antiguidades, e segui o meu caminho enquanto pensava o quão curioso é o mundo – sorrisos que escondem lágrimas; lágrimas que revelam sorrisos.

O céu tinha parado de chover.

P.S.: Não te esqueças de hoje.

















Vítor Pereira

Sem comentários:

Enviar um comentário